—Comtudo, sempre é necessario estender isso um pouco mais.

—Não, repito. Não quero senão essas unicas palavras no bilhete, mas torneadas á moda, arranjadas como o devem ser. Obsequeia-me, dizendo-me, para eu ver, as diversas maneiras de as pôr.

—Primeiramente podem pôr-se da maneira que me disse: Bella marqueza, seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor. Ou então:—D'amor morrer me fazem, bella marqueza, seus bellos olhos. Ou então:—Seus olhos bellos, d'amor me fazem, bella marqueza, morrer. Ou então:—Morrer seus bellos olhos, bella marquesa, d'amor me fazem. Ou então:—Me fazem, seus olhos bellos morrer, bella marqueza, d'amor.

—Mas de todas essas maneiras qual é a melhor?

—A sua: Bella marqueza, seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor!

—E comtudo não tive estudos, fiz isso logo á primeira! Muitissimo obrigado».

A resposta final do Mestre de Philosophia, se o caso não fosse de puro gracejo, não poderia ser applicada, sem restricções, ao verso, não só porque das diversas formulas de qualquer pensamento deve ser escolhida a que fôr melhor segundo as circumstancias, mas tambem porque, como diz um poeta obscuro:

«Prosa e verso têm balisas».

Tudo isto, porém: conhecimento cabal da lingua, e sciencia technica da construcção, não passa do que é estrictamente rudimental na composição poetica.

A moderna evolução do verso, iniciada, como dissemos, pelos parnasianos, tende, no seu movimento ascensional para a perfeição artistica, a pôr de accordo o pensamento e a fórma, a idéa e o som, a melodia e a harmonia.