—Por uma razão muito simples; porque para nos exprimirmos não ha senão a prosa ou os versos.

—Não ha senão a prosa ou os versos?

—Não. Tudo que não é prosa é verso, e tudo que não é verso é prosa.

—E, quando eu fallo, isso que é?

—É prosa.

—Como! quando eu digo: ó José, traz-me os meus sapatos, e dá-me o meu barrete de dormir, isto é prosa?

—Sim, senhor.

—É boa! Ha quarenta annos que fallo em prosa sem o saber! Muito obrigado pelas suas instrucções. O que eu queria pôr no bilhete era:—Bella marqueza, seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor; mas queria que isto fosse posto de uma maneira galante, torneado com elegancia.

—Pôr: que o fogo dos seus olhos lhe reduz o coração a cinzas, que soffre dia e noite as violencias d'um...

—Não, não, não. Não quero nada d'isso. Não quero senão o que lhe disse:—Bella marqueza, seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor.