—Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda ordinaria, esta!
—Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias das almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, os seus labios roçaram sobre os meus{170} olhos, e os seus bigodes produziram-me um frisson nas carnes, com o qual eu me teria entregue ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus dedos que elle segurava entre os seus, sorriu—um sorriso mais lindo do que um raio de sol!—e, sem o querermos, talvez, por certo instinctivamente, os nossos labios se encontraram...
—Vê, Christina, como ficaram as minhas calças...
—Desbotou nellas o setim?
—Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas, estão para ser exprimidas... Que sudorifico!
—Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... Avia-te, afim de que me contes o que viste...
—Dir-te-ei centos de coisas novas...
—Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse que eu fôra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo... Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte que cubiço...{171}
—Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive...
—Apressa-te, Stella!