—Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não ha rio que não chegue ao mar. Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas consegue... Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez não te lembres mais do meu enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso unico com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh! que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabellos e te banhou luciferamente as espaduas! Mezes depois, o cazamento... A noite de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre para accordar novas caricias, para fomentar alegrias... A esperança de um filho... O recúo da esperança... E tudo isto acabar quando mesmo principiava?!...
—Não temas a morte: um cerebro que pensa como o teu dà confiança na renascença da vida.
—A alma não morre, Doca! É ella quem esta vivendo agora. Os pulmões fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz arrasta-se, mas o cerebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos os moribundos não pensam? Illudes-te! É a hora de maior pensamento. Só recompôr todo o passado{95} afim de o ligar ao presente e encerrar o circulo das sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que eu vi, não tinha a fala. Os membros eram paralyticos, os olhos envidrados e photographavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem! esse homem assim amortecido, repelliu com o gesto brusco de uma perna o supplicio de uma injecção nos ultimos instantes... Acaso, não pensaria mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros ha que conhecem até o segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerà mais no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo?
—Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança illuminar-me o rosto...
—Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os affectos e vontades, a minha cura?
—Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde.{96}
—É bem pouco um desejo!
—Duvidas que todas as minhas forças funccionam só na intenção de possuir-te novamente são?
—Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a prolongação de minha tortura...
—Aborrecer-me eu!...