—Bebada, hein?! Ah, corja! tão bom é um como o outro! Mas eu hei de mostrar!
—Ora, não me amole!
E João Romão virou-lhe as costas, para fallar á Bertoleza que se chegára.
—Deixa estar, malvado, que Deus é quem ha de punir por mim e por minha filha! exclamou a desgraçada.
Mas o vendeiro afastou-se, indifferente ás phrases que uma ou outra lavadeira imprecava contra elle. Ellas, porém, já se não mostravam tão indignadas como na vespera; uma só noite rolada por cima do escandalo bastara para tirar-lhe o merito de novidade.
Marcianna foi com a pequena á procura do sub-delegado e voltou aborrecida, porque lhe disseram que nada se poderia fazer emquanto não apparecesse o delinquente. Mãe e filha passaram todo esse sabbado na rua, n'uma roda viva, da secretaria e das estações de policia para o escriptorio de advogados que, um por um, lhes perguntavam de quanto dispunham para gastar com o processo, despachando-as, sem mais considerações, logo que se inteiravam da escassez de recursos de ambas as partes.
Quando as duas, prostradas de cansaço, esbrazeadas de calôr, tornaram á tarde para a estalagem, na hora em que os homens do mercado, que ali moravam, recolhiam-se já com os balaios vazios ou com o resto da fructa que não conseguiram vender na cidade, Marcianna vinha tão furiosa que, sem dar palavra á filha e com os braços moidos de esbordoal-a, abrio toda a casa e correu a buscar agoa para baldear o chão. Estava possessa.
—Vê a vassoura! Anda! Lava! lava, que está isto n'uma porcaria! Parece que nunca se limpa o diabo d'esta casa! É deixal-a fechada uma hora e morre-se de fedor! Apre! isto faz peste!
E notando que a pequena chorava:—Agora déste para chorar, hein?! mas na occasião do relaxamento havias de estar bem disposta!
A filha soluçou.