—É bem feito! Agora chore na cama, que é logar quente!
—Minha filha! Minha filha! Minha filha!
Ninguem quiz tomar o partido da infeliz, á excepção da cabocla velha, que foi collocar-se perto d'ella, fitando-a, immovel, com o seu desvairado olhar de bruxa feiticeira.
Marcianna arrancou-se da abstração plangente em que cahira, para arvorar-se terrivel defronte da venda, apostrophando com a mão no ar e a carapinha desgrenhada:
—Este gallego é que teve a culpa de tudo! Maldito sejas tu, ladrão! Se não me déres conta de minha filha, malvado, pego-te fogo na casa!
A bruxa sorrio sinistramente ao ouvir estas ultimas palavras.
O vendeiro chegou á porta e ordenou em tom secco á Marcianna que despejasse o numero 12.
—É andar! é andar! Não quero esta berraria aqui! Bico, ou chamo um urbano! Dou-lhe uma noite! amanhã pela manhã, rua!
Ah! elle esse dia estava intolerante com tudo e com todos; por mais de uma vez mandara Bertoleza á coisa mais immunda, apenas porque esta lhe fizera algumas perguntas concernentes ao serviço. Nunca o tinham visto assim, tão fora de si, tão cheio de repellões; nem parecia aquelle mesmo homem inalteravel, sempre calmo e methodico.
E ninguem seria capaz de acreditar que a causa de tudo isso era o facto de ter sido o Miranda agraciado com o titulo de Barão.