Seriam quatro da madrugada. Elle conseguio então passar pelo somno.
Ás seis estava de pé. Defronte, a casa do Miranda resplandecia já. Içaram-se bandeiras nas janellas da frente; mudaram-se as cortinas, armaram-se florões de murta á entrada e recamaram-se de folhas de mangueira o corredor e a calçada. Dona Estella mandou soltar foguetes e queimar bombas ao romper da alvorada. Uma banda de musica, em frente á porta do sobrado, tocava desde essa hora. O Barão madrugara com a familia; todo de branco, com uma gravata de rendas, brilhantes no peito da camisa, chegava de vez em quando a uma das janellas, ao lado da mulher ou da filha, agradecendo para a rua; e limpava a testa com o lenço; accendia charutos, risonho, feliz, resplandecente.
João Romão via tudo isto com o coração moído. Certas duvidas aborrecidas entravam-lhe agora a roer por dentro. Qual seria o melhor e o mais acertado:—ter vivido como elle vivera até ali, curtindo privações, em tamancos e mangas de camisa; ou ter feito como o Miranda, comendo boas coisas e gosando á farta?... Estaria elle, João Romão, habilitado a possuir e desfrutar tratamento igual ao do visinho?... Dinheiro não lhe faltava para isso... Sim, de accordo! mas teria animo de gastal-o assim, sem mais nem menos?... sacrificar uma boa porção de contos de réis, tão penosamente accumulados, em troca de uma tetéia para o peito?... Teria animo de dividir o que era seu, tomando esposa, fazendo familia e cercando-se de amigos?... Teria animo de encher de finas iguarias e vinhos preciosos a barriga dos outros, quando até ali fôra tão pouco condescendente para com a propria?... E, caso resolvesse mudar de vida radicalmente, unir-se a uma senhora bem educada e distincta de maneiras, montar um sobrado como o do Miranda e volver-se titular, estaria apto para o fazer?... poderia dar conta do recado?... Dependeria tudo isso sómente da sua vontade?... «Sem nunca ter vestido um paletó, como vestiria uma casaca?... com aquelles pés, deformados pelo diabo dos tamancos, criados á solta, sem meias, como calçaria sapatos de baile?... E suas mãos, callosas e mal tratadas, duras como as de um cavouqueiro, como se ageitariam com a luva?... E isso ainda não era tudo! O mais difficil seria o que tivesse de dizer aos seus convidados!... Como deveria tratar as damas e cavalheiros, em meio de um grande salão cheio de espelhos e cadeiras doiradas?... Como se arranjaria para conversar, sem dizer barbaridades?...
E um desgosto negro e profundo assoberbou-lhe o coração, um desejo forte de querer saltar e um medo invencivel de cahir e quebrar as pernas. Afinal, a dolorosa desconfiança de si mesmo e a terrivel convicção da sua impotencia para pretender outra coisa que não fosse ajuntar dinheiro, e mais dinheiro, e mais ainda, sem saber para que e com que fim, acabaram azedando-lhe de todo a alma e tingindo de fel a sua ambição e despolindo o seu oiro. «Fôra urna besta!... pensou de si proprio, amargurado: uma grande besta!... Pois não! porque em tempo não tratára de habituar-se logo a certo modo de viver, como faziam tantos outros seus patricios e collegas de profissão?... Porque, como elles, não aprendêra a dansar? e não frequentára sociedades carnavalescas? e não fôra de vez em quando á rua do Ouvidor e aos theatros, e a bailes, e a corridas e a passeios?... Porque se não habituara com as roupas finas, e com o calçado justo, e com a bengala, e com o lenço, e com o charuto, e com o chapéo, e com a cerveja, e com tudo que os outros usavam naturalmente, sem precisar de privilegio para isso?... Maldita economia!»
—Teria gasto mais, é verdade?... Não estaria tão bem!... mas, ora adeus! estaria habilitado a fazer do meu dinheiro o que bem quizesse!... Seria um homem civilisado!...
—Você deu hoje pr'a conversar com as almas, seu João?... perguntou-lhe Bertoleza, notando que elle fallava sozinho, distrahido do serviço.
—Deixe-me! Não me amole você tambem. Não estou bom hoje!
—Ó gentes! não fallei por mal!... Crédo!
—'Stá bem! Basta!
E o seu máo humor aggravou-se pelo correr do dia. Começou a implicar com tudo. Arranjou logo uma péga, á entrada da venda, com o fiscal da rua: «Pois elle era lá algum parvo, que tivesse medo de ameaças de multas?... Se o bolas do fiscal esperava comel-o por uma perna, como costumava fazer com os outros, que experimentasse, para ver só quanto lhe custaria a festa!... E que lhe não rosnasse muito, que elle não gostava de cães á porta!... Era andar!» Pegou-se depois com a Machona, por causa de um gato d'esta, que, a semana passada, lhe fôra ao taboleiro do peixe frito. Parava defronte das tinas vazias, encolerisado, procurando pretextos para ralhar. Mandava, com um berro, sahirem as crianças do seu caminho: «Que praga de piolhos! Arre, demonio! Nunca vira gente tão damnada para parir! Pareciam ratas!» Deu um encontrão no velho Liborio.