—Sai tu tambem do caminho, fona de uma figa! Não sei que diabo fica fazendo cá no mundo um caco velho como este, que já não presta para nada!
Protestou contra os gallos de um alfaiate, que se divertia a fazel-os brigar, no meio de grande roda enthusiasmada e barulhenta. Vituperou os italianos, porque estes, na alegre independencia do domingo, tinham á porta da casa uma esterqueira da cascas de melancia e laranja, que elles comiam tagarelando, assentados sobre a janella e a calçada.
—Quero isto limpo! bramava furioso. Está peior que um chiqueiro de porcos! Apre! Tomára que a febre amarella os lamba a todos! maldita raça de carcamanos! Hão de trazer-me isto asseiado ou vai tudo para o olho da rua! Aqui mando eu!
Com a pobre velha Marcianna, que não tratára de despejar o numero 12, conforme a intimação da vespera, a sua furia tocou ao delirio. A infeliz, desde que Florinda lhe fugira, levava a choramingar e maldizer-se, monologando com persistencia maniaca. Não pregou olho durante toda a noite; sahíra e entrára na estalagem mais de vinte vezes, irrequieta, ululando, como uma cadella a quem roubaram o cachorrinho.
Estava apatetada; não respondia ás perguntas que lhe dirigiam. João Romão fallou-lhe; ella nem sequer se voltou para ouvir. E o vendeiro, cada vez mais excitado, foi buscar dois homens e ordenou que esvaziassem o numero 12.
—Os tarecos fóra! e já! Aqui mandou eu! Aqui sou eu monarcha!
E tinha gestos inflexiveis de despota.
Principiou o despejo.
—Não! aqui dentro não! Tudo lá fóra! na rua! gritou elle, quando os carregadores quizeram depôr no pateo os trens de Marcianna. Lá fóra do portão! Lá fóra do portão!
E a misera, sem oppôr uma palavra, assistia ao despejo, acocorada na rua, com os joelhos juntos, as mãos crusadas sobre as canellas, resmungando. Transeuntes paravam, a olhal-a. Formava-se já um grupo de curiosos. Mas ninguem entendia o que ella rosnava; era um rabujar confuso, interminavel, acompanhado de um unico gesto do cabeça, triste e automatico. Ali perto, o colchão velho, já rôto e destripado, os moveis desconjuntados e sem verniz, as trouxas de molambos uteis, as louças ordinarias e sujas do uso, tinham, tudo amontoado e sem ordem, um ar indecoroso de interior de quarto de dormir, devassado em flagrante intimidade. E veio o homem dos cinco instrumentos, que aos domingos apparecia sempre; e fez-se o entra e sáe dos mercadores; e lavadeiras ganharam a rua em trajos de passeio, e os taboleiros de roupa engommada, que sabiam, cruzaram-se com os saccos de roupa suja, que entravam; e Marcianna não se movia do seu lugar, monologando. João Romão percorreu o numero 12, escancarando as portas, a dar arres e empurrando para fóra, com o pé, algum trapo ou algum frasco vazio que lá ficára abandonado; e a enxotada, indifferente a tudo, continuava a sussurrar funebremente. Já não chorava, mas os olhos tinha-os ainda relentados na sua muda fixidez. Algumas mulheres da estalagem iam ter com ella de vez em quando, agora de novo compungidas, e faziam-lhe offerecimentos; Marcianna não respondia. Quizeram obrigal-a a comer; não houve meio. A desgraçada não prestava attenção a coisa alguma; parecia não dar pela presença de ninguem. Chamaram-na pelo nome repetidas vezes; ella persistia no seu inintelligivel monologo, sem tirar a vista de um ponto.