—Aguenta! Aguenta!
Jeronymo foi carregado para o quarto, a gemer, nos braços da mulher e da mulata.
—Aguenta! Aguenta!
De cada casulo espipavam homens armados de páo, achas de lenha, varaes de ferro. Um empenho collectivo os agitava agora, a todos, n'uma solidariedade briosa, como se ficassem deshonrados para sempre se a policia entrasse ali pela primeira vez. Emquanto se tratava de uma simples lucta entre dois rivaes, estava direito! «Jogassem lá as cristãs, que o mais homem ficaria com a mulher!» mas agora tratava-se de defender a estalagem, a communa, onde cada um tinha a zelar por alguem ou alguma coisa querida.
—Não entra! Não entra!
E berros atroadores respondiam ás pranchadas, que lá fóra se repetiam ferozes.
A policia era o grande terror d'aquella gente, porque, sempre que penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropicio: á capa de evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos, quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão de odio velho.
E, emquanto os homens guardavam a entrada do capinzal e sustentavam de costas o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas, arrancavam giráos, arrastavam carroças, restos de colchões e saccos de cal, formando ás pressas uma barricada.
As pranchadas multiplicavam-se. O portão rangia, estalava, começava a abrir-se; ia ceder. Mas a barricada estava feita e todos entrincheirados atraz d'ella. Os que entraram de fora por curiosidade não puderam sahir e viam-se mettidos no surumbamba. As cercas das hortas voaram. A Machona terrivel fungára as saias e empunhava na mão o seu ferro de engommar. A das Dôres, que ninguem dava nada por ella, era uma das mais duras e que parecia mais empenhada na defeza.
Afinal o portão lascou; um grande rombo abrio se logo; cahiram taboas; e os quatro primeiros urbanos que se precipitaram dentro foram recebidos a pedradas e garrafas vazias. Seguiram-se outros. Havia uns vinte. Um sacco de cal, despejado sobre elles, desnorteou-os.