Fez-se logo medonha confusão. Cada qual pensou em salvar o que era seu. E os policias, aproveitando o terror dos adversarios, avançaram com impeto, levando na frente o que encontravam e penetrando emfim no infernal reducto, a dar espadeiradas para a direita e para a esquerda, como quem destroça uma boiada. A multidão atropellava-se, desembestando n'um alarido. Uns fugiam á prisão; outros cuidavam em defender a casa. Mas as praças, loucas de colera, mettiam dentro as portas e iam invadindo e quebrando tudo, sequiosas de vingança.
N'isto, roncou no espaço a trovoada. O vento do norte zunio mais estridente e um grande pé d'agoa desabou cerrado.
[XI]
A Bruxa, por influencia suggestiva da loucura de Marcianna, peiorou do juizo e tentou incendiar o cortiço.
Emquanto os companheiros o defendiam a unhas e dentes, ella, com todo o disfarce, carregava palha e sarrafos para o numero 12 e preparava uma fogueira. Felizmente acudiram a tempo; mas as consequencias foram do mesmo modo desastrosas, porque muitas outras casinhas, escapando como aquella ao fogo, não escaparam á devastação da policia. Algumas ficaram completamente assoladas. E a coisa seria ainda mais feia, se não viera o providencial agoaceiro apagar tambem o outro incendio ainda peior, que, de parte a parte, lavrava nos animos. A policia retirou-se sem levar nenhum preso. «A ir um, iriam todos á estação! Deus te livre! Demais, para que? o que ella queria fazer, fez! Estava satisfeita!»
Apezar do empenho do João Romão, ninguem conseguio descobrir o autor da sinistra tentativa, e só muito tarde cada qual cuidou de pregar olho, depois de reaccommodar, entre plangentes lamentações, o que se salvou do destroço. O tempo levantou de novo á meia noite. Ao romper da aurora já muita gente estava de pé e o vendeiro passava uma revista minuciosa no pateo, avaliando e carpindo, inconsolavel e furioso, o seu prejuizo. De vez em quando soltava uma praga. Além do que escangalharam os urbanos dentro das casas, havia muita tina partida, muito giráo quebrado, lampeões em fanicos, hortas e cercas arrazadas; o portão da frente e a taboleta foram reduzidos a lenha. João Romão meditava, para cobrir o damno, carregar um imposto sobre os moradores da estalagem, augmentando-lhes o aluguel dos commodos e o preço dos generos. Vio-se n'uma dobadoira durante o dia inteiro; desde pela manhã déra logo os providencias para que tudo voltasse aos seus eixos o mais depressa possivel: mandou buscar novas tinas; fabricar novos giráos e concertar os quebrados; pôz gente a remendar o portão e a taboleta. Ao meio dia teve de comparecer á presença do subdelegado na secretaria da policia. Foi mesmo em mangas de camisa e sem meias; muitos do cortiço o acompanharam, quer por espirito de camaradagem, quer por simples curiosidade.
Uma verdadeira patuscada esse passeio á cidade! Parecia uma romaria; algumas mulheres levavam os seus pequenitos ao collo; um magote de italianos ia á frente, macarroneando, a fumar cachimbo; alguns cantavam. Ninguem tomou bonde; e por toda a viagem discutiram e altercaram em grande troça, commentando com gargalhadas e chalaças gordas o que iam encontrando, a chamar a attenção das ruas por onde desfilava a ruidosa farandula.
A sala da policia encheu-se.
O interrogatorio, exclusivamente dirigido a João Romão, era respondido por todos a um só tempo, a despeito dos protestos e das ameaças da autoridade, que se vio tonta. Nenhum d'elles nada esclarecia e todos se queixavam da policia, exagerando as perdas recebidas na vespera.
A respeito de como se travara o conflicto e quem o provocara, o taverneiro declarou que nada podia saber ao certo, porque na occasião se achava ausente da estalagem. Do que tinha certeza era de que as praças lhe invadiram a propriedade e poseram em cacos tudo o que encontraram, como se aquillo lá fosse roupa de francez!