Feliz e esperto era o João Romão! esse, sim, senhor! Para esse é que havia de ser a vida!... Filho da mãe, que estava hoje tão livre e desembaraçado como no dia em que chegou da terra sem um vintém de seu! esse, sim, que era moço e podia ainda gozar muito, porque, quando mesmo viesse a casar e a mulher lhe sahisse uma outra Estella, era só mandal-a p'ra o diabo com um pontapé! Podia fazel-o! Para esse é que era o Brasil!

—Fui uma besta! repisava elle, sem conseguir conformar-se com a felicidade do vendeiro. Uma grandissima besta! No fim de contas que diabo possuo eu?... Uma casa de negocio, da qual não posso separar-me sem comprometter o que lá está enterrado! um capital mettido n'uma rêde de transacções que não se liquidam nunca, e cada vez mais se complicam e mais me grudam ao estupor d'esta terra, onde deixarei a casca! Que tenho de meu, se a alma do meu credito é o dote, que me trouxe aquella sem vergonha, e que a ella me prende como a peste da casa commercial me prende a esta Costa d'Africa?...

Foi da suppuração fetida d'estas idéas que se formou no coração vasio do Miranda um novo ideal—o titulo. Faltando-lhe temperamento proprio para os vicios fortes que enchem a vida de um homem; sem familia a quem amar e sem imaginação para poder gozar com as prostitutas, o naufrago agarrou-se áquella taboa, como um agonisante, consciente da morte, que se apega á esperança de uma vida futura. A vaidade de Estella, que a principio lhe tirava dos labios incredulos sorrisos de mofa, agora lhe comprazia á farta. Procurou capacitar-se de que ella com effeito herdara sangue nobre, e que elle, por sua vez, se não o tinha herdado, trouxera-o por natureza propria, o que devia valer mais ainda; e desde então principiou a sonhar com um baronato, fazendo d'isso o objecto querido da sua existencia, muito satisfeito no intimo por ter afinal descoberto uma coisa em que podia empregar dinheiro, sem ter, nunca mais, de restituil-o á mulher, nem ter de deixal-o a pessoa alguma.

Semelhante preoccupação modificou-o em extremo. Deu logo para fingir-se escravo das conveniencias, affectando escrupulos sociaes, empertigando-se quanto podia e disfarçando a sua inveja pelo vizinho com um desdenhoso ar de superioridade condescendente. Ao passar-lhe todos os dias pela venda, cumprimentava-o com protecção, sorrindo sem rir e fechando logo a cara em seguida, muito serio.

Dados os primeiros passos para a compra do titulo, abrio a casa e deu festas. A mulher, posto que lhe apontassem já os cabellos brancos, rejubilou com isso.

Zulmira tinha então doze para treze annos e era o typo acabado da fluminense; pallida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas mucosas do nariz, das palpebras e dos labios, faces levemente pintalgadas de sardas. Respirava o tom humido das flores nocturnas, uma brancura fria de magnolia; cabellos castanho claro, mãos quasi transparentes, unhas molles e curtas, como as da mãe, dentes pouco mais claros do que a cutis do rosto, pés pequenos, quadril estreito, mas os olhos grandes, negros, vivos e maliciosos.

Por essa época, justamente, chegava de Minas, recommendado ao pae d'ella, o filho de um fazendeiro importantissimo que dava bellos lucros á casa commercial do Miranda e que era talvez o melhor freguez que este possuia no interior.

O rapaz chamava-se Henrique, tinha quinze annos e vinha terminar na côrte alguns preparatorios que lhe faltavam para entrar na academia de medicina. Miranda hospedou-o no seu sobrado da rua do Hospicio, mas o estudante queixou-se, no fim de alguns dias, de que ahi ficava mal accommodado, e o negociante, o quem não convinha desagradar-lhe, carregou com elle para a sua residencia particular de Botafogo.

Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com umas delicadezas de menina. Parecia muito cuidadoso dos seus estudos e tão pouco extravagante e gastador, que não despendia um vintem fóra das necessidades de primeira urgencia. De resto, a não ser de manhã para as aulas, que ia sempre com o Miranda, não arredava pé de casa senão em companhia da familia d'este. Dona Estella, ao cabo de pouco tempo, mostrou por elle estima quasi maternal e encarregou-se de tomar conta da sua mesada, mesada posta pelo negociante, visto que o Henriquinho tinha ordem franca do pae.

Nunca pedia dinheiro; quando precisava de qualquer coisa, reclamava-a de Dona Estella, que por sua vez encarregava ao marido de compral-a, sendo o objecto lançado na conta do fazendeiro com uma commissão de usurario. Sua hospedagem custava duzentos e cincoenta mil réis por mez, do que elle todavia não tinha conhecimento, nem queria ter. Nada lhe faltava, e os criados da casa o respeitavam como a um filho do proprio senhor.