Á noite, ás vezes, quando o tempo estava bom, Dona Estella sahia com elle, a filha e um moleque, o Valentim, a darem uma volta até á praia, e, em tendo convite para qualquer festa em casa das amigas, levava-o em sua companhia.
A criadagem da familia do Miranda compunha-se de Izaura, mulata ainda moça, moleirona e tola, que gastava todo a vintemzinho que pilhava em comprar capilé na venda de João Romão; uma negrinha virgem, chamada Leonor, muito ligeira e viva, lisa e secca como um moleque, conhecendo de orelha, sem lhe faltar um termo, a vasta technologia da obscenidade, e dizendo, sempre que os caixeiros ou os freguezes da taberna, só para mexer com ella, lhe davam atracações: «Oia, que eu me quexo ao juiz de orfe!» e finalmente o tal Valentim, filho de uma escrava que foi de Dona Estella e a quem esta havia alforriado.
A mulher do Miranda tinha por este moleque uma affeição sem limites: dava-lhe toda a liberdade, dinheiro, presentes, levava-o comsigo a passeio, trazia-o bem vestido e muita vez chegou a fazer ciumes á filha, de tão solicita que se mostrava com elle. Pois se a caprichosa senhora ralhava com Zulmira por causa do negrinho! Pois, se quando se queixavam os dous, um contra o outro, ella nunca dava razão á filha! Pois se o que havia de melhor na casa era para o Valentim! Pois, se quando foi este atacado de bexigas e o Miranda, apezar das supplicas e dos protestos da esposa, mandou-o para um hospital, Dona Estella chorava todos os dias e durante a ausencia d'elle não tocou piano, nem cantou, nem mostrou os dentes a ninguem? E o pobre Miranda, se não queria soffrer impertinencias da mulher e ouvir semsaborias defronte dos criados, tinha de dar ao moleque toda a consideração e fazer-lhe humildemente todas as vontades.
Havia ainda, sob as telhas do negociante, um outro hospede alem do Henrique, o velho Botelho. Este porém na qualidade de parasita.
Era um pobre diabo caminhando para os setenta annos; antipathico, cabello branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo theor; muito macilento, com uns oculos redondos que lhe augmentavam o tamanho da pupilla e davam-lhe á cara uma expressão de abutre, perfeitamente de accordo com o seu nariz adunco e com a sua bocca sem labios; viam-se-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam limados até ao meio. Andava sempre de preto, com um guarda-chuva debaixo do braço e um chapéu de Braga enterrado nas orelhas. Fôra em seu tempo empregado do commercio, depois corretor de escravos; contava mesmo que estivera mais de uma vez na Africa, negociando negros por sua conta. Atirou-se muito ás especulações; durante a guerra do Paraguay ainda ganhara forte, chegando a ser bem rico; mas a roda desandou e, de malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo por entre as suas garras de ave de rapina. E agora, coitado, já velho, comido de desillusões, cheio de hemorrhoidas, via-se totalmente sem recursos e vegetava á sombra do Miranda, com quem por muitos annos trabalhou em rapaz, sob as ordens do mesmo patrão, e de quem se conservara amigo, a principio por acaso e mais tarde por necessidade.
Devorava-o, noite e dia, uma implacavel amargura, uma surda tristeza de vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra todos, por não lhe ter sido possivel empolgar o mundo com as suas mãos hoje inuteis e tremulas. E, como o seu actual estado de miseria não lhe permittia abrir contra ninguem o bico, desabafava vituperando as idéas da época.
Assim, eram ás vezes muito quentes as sobremesas do Miranda, quando, entre outros assumptos palpitantes, vinha á discussão o movimento abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco. Então o Botelho ficava possesso e vomitava phrases terriveis, para a direita e para a esquerda, como quem dispara tiros sem fazer alvo, e vociferava imprecações, aproveitando aquella valvula para desafogar o velho odio accumulado dentro d'elle.
—Bandidos! berrava apoplectico. Cafila de salteadores!
E o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em settas envenenadas, procurando cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades. A virtude, a belleza, o talento, a mocidade, a força, a saude, e principalmente a fortuna, eis o que elle não perdoava a ninguem, amaldiçoando todo aquelle que conseguia o que elle não obtivéra; que gosava o que elle não desfructára; que sabia o que elle não aprendêra. E, para individualisar o objecto do seu odio, voltava-se contra o Brasil, essa terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia: enriquecer os portuguezes, e que, no emtanto, o deixára, a elle, na penuria.
Seus dias eram consumidos do seguinte modo: acordava ás oito da manhã, lavava-se mesmo no quarto com uma toalha molhada em espirito de vinho; depois ia ler os jornaes para a sala de jantar, a espera do almoço; almoçava e sahia, tomava o bonde e ia direitinho para uma charutaria da rua do Ouvidor, onde costumava ficar assentado até ás horas do jantar, entretido a dizer mal das pessoas que passavam lá fóra, de fronte d'elle. Tinha a pretenção de conhecer todo o Rio de Janeiro e os podres de cada um em particular. Ás vezes, poucas, Dona Estella encarregava-o de fazer pequenas compras de armarinho, o que o Botelho desempenhava melhor que ninguem. Mas a sua grande paixão, o seu fraco, era a farda, adorava tudo que dissesse respeito ao militarismo, posto que tivéra sempre invencivel medo ás armas de qualquer especie, mórmente ás de fogo. Não podia ouvir disparar perto de si uma espingarda, enthusiasmava-se porém com tudo que cheirasse a guerra; a presença de um official em grande uniforme tirava-lhe lagrimas de commoção; conhecia na ponta da lingua o que se referia á vida de quartel; distinguia ao primeiro lance d'olhos o posto e o corpo a que pertencia qualquer soldado, e, apezar dos seus achaques, era ouvir tocar na rua a corneta ou o tambor conduzindo o batalhão, ficava logo no ar, e, muita vez, quando dava por si, fazia parte dos que accompanhavam a tropa. Então, não tornava para casa emquanto os militares não se recolhessem. Quasi sempre voltava d'essa loucura ás seis da tarde, moido a fazer dó, sem poder ter-se nas pernas, estrompado de marchar horas e horas ao som da musica de pancadaria. E o mais interessante é que elle, ao vir-lhe a reacção, revoltava-se furioso contra o maldito commandante que o obrigára áquella estopada, levando o batalhão por uma infinidade de ruas e fazendo de proposito o caminho mais longo.