—Só parece, lamentava-se elle, que a intenção d'aquelle malvado era dar-me cabo da pelle! Ora vejam! Tres horas de marche-marche por uma soalheira de todos os diabos!

Uma das birras mais comicas do Botelho era o seu odio pelo Valentim. O moleque causava-lhe febre com as suas petulancias de mimalho, e, velhaco, percebendo quanto ellas o irritavam, ainda mais abusava, seguro na protecção de Dona Estella. O parasita de muito que o teria estrangulado, se não fôra a necessidade de agradar a dona da casa.

Botelho conhecia as fallas de Estella como as palmas da propria mão. O Miranda mesmo, que o via em conta de amigo fiel, muitas e muitas vezes lh'as confiára em occasiões desesperadas de desabafo, declarando francamente o quanto no intimo a desprezava e a razão porque não a punha na rua aos pontapés. E o Botelho dava-lhe toda a razão; entendia tambem que os serios interesses commerciaes estavam acima de tudo.

—Uma mulher n'aquellas condições, dizia elle convicto, representa nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a gente despreza! Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ella...

—Ora! explicava o marido. Eu me sirvo d'ella como quem se serve de uma escarradeira!

O parasita, feliz por ver quanto o amigo aviltava a mulher, concordava em tudo plenamente, dando-lhe um carinhoso abraço de admiração. Mas por outro lado, quando ouvia Estella fallar do marido, com infinito desdem e até com asco, ainda mais resplandecia de contente.

—Você quer saber? affirmava ella, eu bem percebo quanto aquelle traste do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me dá como a primeira camisa que vesti! Desgraçadamente para nós, mulheres de sociedade, não podemos viver sem o esposo, quando somos casadas; de forma que tenho de aturar o que me cahio em sorte, quer goste d'elle quer não goste! juro-lhe, porém, que, se consinto que o Miranda se chege ás vezes para mim, é porque entendo que paga mais á pena ceder do que puxar discussão com uma besta d'aquella ordem!

O Botelho, com a sua encanecida experiencia do mundo, nunca transmittia a nenhum dos dous o que cada qual lhe dizia contra o outro; tanto assim que, certa occasião, recolhendo-se á casa incommodado, em hora que não era do seu costume, ouvio, ao passar pelo quintal, sussurros de vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de verdura, onde em geral não ia ninguem.

Encaminhou-se para lá em bicos de pés e, sem ser percebido, descobrio Estella entalada entre o muro e o Henrique. Deixou-se ficar espiando, sem tugir nem mugir, e, só quando os dous se separaram, foi que elle se mostrou.

A senhora soltou um pequeno grito, e o rapaz, de vermelho que estava, fez-se côr de cera; mas o Botelho procurou tranquillisal-os, dizendo em voz amiga e mysteriosa: