Pagou a despeza, e os tres sahiram, não cambaleando, mas como que empurrados por um vento forte, que os fazia de vez em quando dar para frente alguns passos mais rapidos. Seguiram pela rua de Sorocaba e tomaram depois a direcção da praia, conversando em voz baixa, muito excitados. Só pararam perto do Garnizé.
—Vais tu então, não é? perguntou o cavouqueiro ao Pataca.
Este respondeu entregando-lhe o embrulho dos páos e afastando-se de mãos nas algibeiras, a olhar para os pés, fingindo-se mais bebado do que realmente estava.
[XV]
O Garnizé tinha bastante gente essa noite. Em volta de umas doze mezinhas toscas, de páo, com uma coberta de folha de Flandres pintada de branco fingindo marmore, viam-se grupos de tres e quatro homens, quasi todos em mangas de camisa, fumando e bebendo no meio de grande algazarra. Fazia-se largo consumo de cerveja nacional, vinho virgem, paraty e laranginha. No chão coberto de areia havia cascas de queijo de Minas, restos de iscas de figado, espinhas de peixe, dando idéa de que ali não só se enxugava como tambem se comia. Com effeito, mais para dentro, n'um engordurado bufete, junto ao balcão e entre as prateleiras de garrafas cheias e arrolhadas, estava um travessão de assado com batatas, um osso de presunto e varios pratos de sardinhas fritas. Dois candieiros de kerozene fumegavam, encarvoando o tecto. E de uma porta ao fundo, que escondia o interior da casa com uma cortina de chita vermelha, vinha de vez em quando uma baforada de vozes roucas, que parecia morrer em caminho, vencida por aquella densa atmosphera cor de opala.
O Pataca estacou á entrada, affectando grande bebedeira e procurando com disfarce, em todos os grupos, ver se descobria o Firmo. Não o conseguio; mas alguem, em certa meza, lhe chamára a attenção, porque elle se dirigio para lá. Era uma mulatinha magra, mal vestida, acompanhada por uma velha quasi cega e mais um homem, inteiramente calvo, que soffria de asthma e, de quando em quando, abalava a meza com um frouxo de tosse, fazendo dansar os copos.
O Pataca bateu no hombro da rapariga.
—Como vais tu, Florinda?
Ella olhou para elle, rindo; disse que ia bem, e perguntou-lhe como passava.
—Róla-se, filha. Tu que fim levaste? Ha um par de quinze dias que te não vejo!