Ás cinco horas levantou-se de novo com um salto. «Já havia gente lá fóra com certeza!...» Ouvira ranger a primeira porta; abrio a janella, mas ainda estava tão escuro que se não distinguia patavina. Era uma preguiçosa madrugada de Agosto, nebulosa, humida; parecia disposta a resistir ao dia. «Ó senhores! aquella noite dos diachos não acabaria nunca mais?...» Entretanto, adivinhava-se que ia amanhecer. Piedade ouvio dentro do pateo, do lado contrario á sua casa, um zum-zum de duas vozes cochichando com interesse. «Virgem do céo! dir-se-ia a voz do seu homem! E a outra era voz de mulher, credo! Illusão sua com certeza! ella essa noite estava para ouvir o que não se dava...» Mas aquelles cochichos dialogados na escuridão causavam-lhe extremo alvoroço. «Não! Como poderia ser elle?... Que loucura! se o homem estivesse ali teria sem duvida procurado a casa!...» E os cochichos persistiam emquanto Piedade, toda ouvidos, estalava de agonia.

—Jeromo! gritou ella.

As vozes calaram-se logo, fazendo o silencio completo; depois nada mais se ouvio.

Piedade ficou á janella. As trevas dissolveram-se afinal; uma claridade triste formou-se no nascente e foi, a pouco e pouco, se derramando pelo espaço. O ceu era uma argamassa cinzenta e gorda. O cortiço acordava com o remancho das segundas feiras; ouviam-se os pigarros das resacas de paraty. As casinhas abriam-se; vultos espreguiçados vinham bocejando fazer a sua lavagem á bica; as chaminés principiavam a fumegar; rescendia o cheiro do café torrado.

Piedade atirou um chale em cima dos hombros e sahio ao pateo; a Machona, que acabava de apparecer á porta do numero 7 com um berro para acordar a familia de uma só vez, gritou-lhe:

—Bons dias, visinha! Seu marido como vai? melhor?

Piedade soltou um suspiro.

—Ai, não m'o porgunte, sóra Leandra!

—Peiorou, filha?

—Não veio esta noite pr'a casa...