Piedade entrou carrancuda na estalagem; não vinha triste, vinha enfurecida; soubera na rua a respeito do marido mais do que esperava. Soubera em primeiro logar que elle estava vivo, perfeitamente vivo, pois fôra visto aquelle mesmo dia, mais de uma vez, no Garnizé e na praia da Saudade, a vagar macambuzio; soubera, por intermedio de um rondante amigo de Alexandre, que Jeronymo surgira de manhãzinha do capinzal perto da pedreira de João Romão, o que fazia crer viesse elle n'aquelle momento de casa, sahindo pelos fundos do cortiço; soubera ainda que o cavouqueiro fôra á Ordem buscar a sua caixa de roupa e que, na vespera, estivera a beber á farta na venda do Pépé, de sucia com o Zé Carlos e com o Pataca, e que depois seguiram para os lados da praia, todos tres mais ou menos no gole. Sem a menor desconfiança do crime, a desgraçada ficou convencida de que o marido não se recolhera aquella noite á casa, porque ficára em grossa pandega com os amigos e que, voltando tarde e bebado, dera-lhe para metter-se com a mulata, que o aceitou logo. «Pudera! Pois se havia muito a deslambida não queria outra coisa!...» Com esta convicção inchou-lhe de subito por dentro um novello de ciumes, e ella correu incontinenti para a estalagem, certa de que iria encontrar o homem e despejaria contra elle aquella tremenda tempestade de resentimentos e despeitos accumulados, que ameaçavam suffocal-a se não rebentassem de vez. Atravessou o cortiço sem dar palavra a ninguem e foi direito á casa; contava encontral-a aberta e a sua decepção foi cruel ao vel-a fechada como a deixára. Pedio a chave á Machona, que, ao entregal-a, inquirio sobre Jeronymo e pespegou-lhe ao mesmo tempo a noticia do assassinato de Firmo.
Com esta nova é que Piedade não contava. Ficou livida; um pavoroso presentimento varou-lhe o espirito como um raio. Afastou-se logo, com medo de fallar, e foi tremula e offegante que abrio a porta e metteu-se no numero 35.
Atirou-se a uma cadeira. Estava morta de cansaço; não tinha comido nada esse dia e não sentia fome; a cabeça andava-lhe á roda, as pernas pareciam-lhe de chumbo.
Seria elle?!... interrogou a si propria.
E os raciocinios começaram a surdir-lhe em massa, ensarilhados, atropellando-lhe a razão. Não conseguia coordenal-os; entre todas uma idéa insubordinava-se com mais teima, a perturbar as outras, ficando superior, como uma carta maior que o resto do baralho: «Se elle matou o Firmo, dormio na estalagem e não veio ter commigo, é porque então deixou-me de feita pela Rita!»
Tentou fugir a semelhante hypothese; repellio-a indignada. Não! não era possivel que o Jeronymo, seu marido de tanto tempo, o pai de sua filha, um homem a quem ella nunca déra razão de queixa e a quem sempre respeitára e quizera com o mesmo carinho e com a mesma dedicação, a abandonasse de um momento para outro, e por quem?! por uma não sei que diga! um diabo de uma mulata assanhada, que tão depressa era de Pedro como de Paulo! uma sirigaita, que vivia mais para a folia do que para o trabalho! uma peste, que... Não! Qual! Era lá possivel?! Mas então porque elle não viéra?... porque não vinha?... porque não dava noticias suas?... porque fôra pela manhã á Ordem busquar a caixa da roupa?... O Roberto Papa-defuntos dissera-lhe que o encontrara ás duas da tarde ali perto, ao dobrar da rua Bambina, e que até pararam um instante para conversar. Com mais alguns passos teria chegado á casa! Seria possivel, santos do ceu! que o seu homem estivesse disposto a nunca mais tornar para junto d'ella?
Nisto entrou a outra, acompanhada por um pequeno descalço. Vinha satisfeita; estivera com Jeronymo, jantaram juntos, n'uma casa de pasto; ficára tudo combinado; arranjára-se o ninho. Não se mudaria logo para não dar que fallar na estalagem, mas levaria alguma roupa e os objectos mais indispensaveis e que não dessem na vista por occasião do transporte. Voltaria no dia seguinte ao cortiço, onde continuaria a trabalhar; á noite iria ter com o novo amante, e, no fim de uma semana—zaz! fazia-se a mudança completa, e adeus coração!—Por aqui é o caminho! O cavouqueiro, pelo seu lado, mandaria uma carta a João Romão, despedindo-se do seu serviço, e outra á mulher, dizendo com boas palavras que, por uma d'essas fatalidades de que nenhuma creatura está livre, deixava de viver em companhia d'ella, mas que lhe conservaria a mesma estima e continuaria a pagar o collegio da filha; e, feito isto, prompto! entraria em vida nova, senhor da sua mulata, livres e sozinhos, independentes, vivendo um para o outro, n'uma eterna embriaguez de gosos.
Mas, na occasião em que a bahiana, seguida pelo pequeno, passava defronte da porta de Piedade, esta deu um alto da cadeira e gritou-lhe:
—Faz favor?
—Que é? resmungou Rita, parando sem voltar senão o rosto, e já a dizer no seu todo de impaciencia que não estava disposta a muita conversa.