—Entra! Entra!

E as palavras «gallego» e «cabra» cruzaram-se do todos os pontos, como bofetadas. Houve um vaváo rapido e surdo, e logo em seguida um formidavel rôlo, um rôlo a valer, não mais de duas mulheres, mas de uns quarenta e tantos homens de pulso, rebentou como um terremoto. As cercas e os giráos desappareceram do chão e estilhaçaram-se no ar, estalando em descarga; ao passo que n'uma berraria infernal, n'um fecha-fecha de formigueiro em guerra, aquella onda viva ia arrastando o que topava no caminho; barracas e tinas, baldes, regadores e caixões de planta, tudo rolava entre aquella centena de pernas confundidas e doidas. Das janellas do Miranda apitava-se com furia; da rua, em todo o quarteirão, novos apitos respondiam; dos fundos do cortiço e pela frente surgia povo e mais povo. O pateo estava quasi cheio; ninguem mais se entendia; todos davam e todos apanhavam; mulheres e crianças berravam. João Romão, clamando furioso, sentia-se impotente para conter semelhantes demonios. «Fazer rôlo áquella hora, que imprudencia!» Não conseguio fechar as portas da venda, nem o portão da estalagem; guardou ás pressas na burra o que havia em dinheiro na gaveta, e, armando-se com uma tranca de ferro, pôz-se de sentinella ás prateleiras, disposto a abrir o casco ao primeiro que se animasse a saltar-lhe o balcão. Bertoleza, lá dentro na cozinha, apromptava uma grande chaleira de agoa quente, para defender com ella a propriedade do seu homem. E o rôlo a ferver lá fóra, cada vez mais inflammado com um terrivel sopro de rivalidade nacional. Ouviam-se, n'um clamor de pragas e gemidos, vivas a Portugal e vivas ao Brazil. De vez em quando, o povaréo, que continuava a crescer, afastava-se em massa, rugindo de medo, mas tornava logo, como a onda no refluxo dos mares. A policia appareceu e não se achou com animo de entrar, antes de vir um reforço de praças, que um permanente fôra buscar a galope!

E o rôlo fervia.

Mas, no melhor da lucta, ouvio-se na rua um côro de vozes que se approximava das bandas do Cabeça de Gato. Era o canto de guerra dos capoeiras do outro cortiço, que vinham dar batalha aos Carapicús, para vingar com sangue a morte de Firmo, seu chefe de malta.

[XVII]

Mal os Carapicús sentiram a approximação dos rivaes, um grito de alarma echoou por toda a estalagem e o rôlo dissolveu-se de improviso, sem que a desordem cessasse. Cada qual correu á casa, rapidamente, em busca do ferro, do páo e de tudo que servisse para resistir e para matar. Um só impulso os impellia a todos; já não havia ali brasileiros e portuguezes, havia um só partido que ia ser atacado pelo partido contrario; os que se batiam ainda ha pouco emprestavam armas uns aos outros, limpando com as costas da mão o sangue das feridas. Agostinho, encostado ao lampeão do meio do cortiço, cantava em altos berros uma coisa que lhe parecia responder á musica barbara que entoavam lá fora os inimigos; a mãe déra-lhe licença, a pedido d'elle, para pôr um cinto de Nênêm, em que o pequeno enfiou a faca da cozinha. Um mulatinho franzino, que até ahi não fôra notado por ninguem no São Romão, postou-se defronte da entrada, de mãos limpas, á espera dos invasores; e todos tiveram confiança n'elle, porque o ladrão, além de tudo, estava rindo.

Os Cabeças de Gato assomaram afinal ao portão. Uns cem homens, em que senão via a arma que traziam. Porfiro vinha na frente, a dansar, de braços abertos, bamboleando o corpo e dando rasteiras para que ninguem lhe estorvasse a entrada. Trazia o chapéo á ré, com um laço de fita amarella fluctuando na copa.

—Aguenta! Aguenta! Faz frente! clamavam de dentro os Carapicús.

E os outros, cantando o seu hymno de guerra, entraram e approximaram-se lentamente, a dansar como selvagens.

As navalhas traziam-nas abertas e escondidas na palma da mão.