Ao desafio da mulata, Piedade saltara ao pateo, armada com um dos seus tamancos. Uma pedrada recebeu-a em caminho, rachando-lhe a pelle do queixo, ao que ella respondeu desfechando contra a adversaria uma formidavel pancada na cabeça.

E pegaram-se logo a unhas e dentes.

Por algum tempo luctaram de pé, engalfinhadas, no meio da grande algazarra dos circumstantes. João Romão acudio e quiz separal-as; todos protestaram. A familia do Miranda assomou á janella, tomando ainda o café de depois do jantar, indifferente, já habituada áquellas scenas. Dois partidos todavia se formavam em torno das luctadoras; quasi todos os brasileiros eram pela Rita e quasi todos os portuguezes pela outra. Discutia-se com febre a superioridade de cada qual dellas; rebentavam gritos de enthusiasmo a cada mossa que qualquer das duas recebia; e estas, sem se desunharem, tinham já arranhões e mordeduras por todo o busto.

Quando menos se esperava, ouvio-se um baque pesado e vio-se Piedade de bruços no chão e a Rita por cima, escarranchada sobre as suas largas ancas, a socar-lhe o cachaço de murros contínuos, desgrenhada, rota, offegante, os cabellos cahidos sobre a cara, gritando victoriosa, com a bocca escorrendo sangue:

—Toma pr'o teu tabaco! Toma, gallinha podre! Toma, pr'a não te metteres commigo! Toma! Toma, baiacú da praia!

Os portuguezes precipitaram-se para tirar Piedade de debaixo da mulata. Os brasileiros oppozeram-se ferozmente.

—Não póde?

—Enche!

—Não deixa!

—Não tira!