—E a menina?

—Respondo por ella. Você não tem continuado a receber as flôres?

—Tenho.

—Pois então não deixe pelo seu lado de ir mandando tambem as suas e faça o que lhe disse.—Atire-se, seu João, atire-se emquanto o angú está quente!

Por outro lado, Jeronymo empregára-se na pedreira de São Diogo, onde trabalhava d'antes, e morava agora com a Rita numa estalagem da Cidade Nova.

Tiveram de fazer muita despeza para se installarem; foi-lhes preciso comprar de novo todos os arranjos de casa, porque do São Romão Jeronymo só levou dinheiro, dinheiro que elle já não sabia poupar. Com o asseio da mulata a sua casinha ficou, todavia, que era um regalo; tinham cortinado na cama, lençóes de linho, fronhas de renda, muita roupa branca, para mudar todos os dias, toalhas de meza, guardanapos; comiam em pratos de porcelana e uzavam sabonetes finos. Plantaram á porta uma trepadeira que subia para o telhado, abrindo pela manhã flôres escarlates, de que as abelhas gostavam muito; penduraram gaiolas de passarinho na sala de jantar; sortiram a despensa de tudo que mais gostavam; compraram gallinhas e marrecos e fizeram um banheiro só para elles, porque o da estalagem repugnou á bahiana que, n'esse ponto, era muito escrupulosa.

A primeira parte da sua lua de mel foi uma cadeia de delicias continuas; tanto elle como ella, pouco ou nada trabalharam; a vida dos dois resumíra-se, quasi que exclusivamente, nos oito palmos de colchão novo, que nunca chegava a esfriar de todo. Jámais a existencia pareceu tão boa e corredia para o portuguez; aquelles primeiros dias fugiram-lhe como estrophes seguidas de uma deliciosa canção de amor, apenas espacejada pelo estribilho dos beijos em dueto; foi um prazer prolongado e amplo, bebido sem respirar, sem abrir os olhos, n'aquelle collo carnudo e doirado da mulata, a que o cavouqueiro se abandonara como um bebedo que adormece abraçado a um garrafão inesgotavel de vinho gostoso.

Estava completamente mudado. Rita apagára-lhe a ultima restea das recordações da patria; seccou, ao calor dos seus labios grossos e vermelhos, a derradeira lagrima de saudade, que o desterrado lançou do coração com o extremo arpejo que a sua guitarra suspirou.

A guitarra! substituio-a ella pelo violão bahiano, e deu-lhe a elle uma rede, um cachimbo, e embebedou-lhe os sonhos de amante prostrado com as suas cantigas do norte, tristes, deleitosas, em que ha caboclinhos corropiras que no sertão vêm pitar á beira das estradas em noites de lua clara, e querem que todo o viajante que vae passando lhes ceda fumo e cachaça, sem o que, ai d'elles! o corropira transforma-os em bicho do matto. E deu-lhe do seu de comer da Bahia, temperado como fogoso azeite de dendem, côr de braza; deu-lhe das suas muquecas escandescentes, de fazer chorar, e habituou-lhe a carne ao cheiro sensual d'aquelle seu corpo de cobra, lavado tres vezes ao dia e tres vezes perfumado com hervas aromaticas.

O portuguez abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das extravagancias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fôra-se-lhe de vez o espirito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, á felicidade de possuir a mulata e ser possuido só por ella, só ella, e mais ninguem.