A morte do Firmo não vinha nunca toldar-lhes o goso da vida; quer elle, quer a amiga, achavam a coisa muito natural. «O facinora matara tanta gente; fizera tanta maldade; devia pois acabar como acabou! Nada mais justo! Se não fosse Jeronymo, seria outro! Elle assim o quiz—bem feito!»
Por esse tempo, Piedade de Jesus, sem se conformar com a ausencia do marido, chorava o seu abandono e ia tambem agora se transformando de dia para dia, vencida por um desmazelo de chumbo, uma dura desesperança, a que nem as lagrimas bastavam para adoçar as agruras. A principio, ainda a pobre de Christo tentou resistir com coragem áquella viuvez peior que essa outra, em que ha, para elemento de resignação, a certeza de que a pessoa amada nunca mais terá olhos para cobiçar mulheres, nem bocca para pedir amores; mas depois começou a afundar sem resistencia na lama do seu desgosto, covardemente, sem forças para illudir-se com uma esperança fatua, abandonando-se ao abandono, desistindo dos seus principios, do seu proprio caracter, sem se ter já n'este mundo na conta de alguma coisa e continuando a viver sómente porque a vida era teimosa e não queria deixal-a ir apodrecer lá em baixo, por uma vez. Deu para desleixar-se no serviço; as suas freguezas de roupa começaram a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se madraça e moleirona, precisando já empregar grande esforço para não bolir nas economias que Jeronymo lhe deixára, porque isso devia ser para a filha, aquella probrezita orphanada antes da morte dos paes.
Um dia, Piedade levantou-se queixando-se de dôres de cabeça, zoada nos ouvidos e o estomago embrulhado; aconselharam-lhe que tomasse um trago de paraty. Ella aceitou o conselho e passou melhor. No dia seguinte repetio a doze; deu-se bem com a perturbação em que a punha o alcool, esquecia-se um pouco durante algum tempo das amofinações da sua vida; e, gole a gole, habituára-se a beber todos os dias o seu meio martello de aguardente, para enganar os pezares.
Agora, que o marido já não estava ali para impedir que a filha puzesse os pés no cortiço, e agora que Piedade precisava de consolo, a pequena ia passar os domingos com ella. Sahira uma criança forte e bonita; puxara do pae o vigor physico e da mãe a expressão bondosa da physionomia. Já tinha nove annos.
Eram esses agora os unicos bons momentos da pobre mulher, esses que ella passava ao lado da filha. Os antigos moradores da estalagem principiavam a distinguir a menina com a mesma predilecção com que amavam Pombinha, porque em toda aquella gente havia uma necessidade moral de eleger para mimoso da sua ternura um entezinho delicado e superior, a quem elles privilegiavam respeitosamente, como subditos a um principe. Chrismaram-na logo com o cognome de «Senhorinha».
Piedade, apezar do procedimento do marido, ainda no intimo se impressionava com a idéa de que não devia contrarial-o nas suas disposições de pae. «Mas que mal tinha que a pequena fosse ali?... Era uma esmola que fazia á mãe! Lá pelo risco de perder-se... Ora adeus, só se perdia quem mesmo já nascêra para a perdição! A outra não se conservára sã e pura? não achára noivo? não casára e não vivia dignamente com o seu marido? Então?!» E Senhorinha continuou a ir á estalagem, a principio nos domingos pela manhã, para voltar á tarde, depois já de vespera, nos sabbados, para só tornar ao collegio na segunda feira.
Jeronymo, ao saber disto, por intermedio da professora, revoltou-se no primeiro impeto, mas, pensando bem no caso, achou que era justo deixar á mulher aquelle consolo. «Coitada! devia viver bem aborrecida da sorte!» Tinha ainda por ella um sentimento compassivo, em que a melhor parte nascêra com o remorso. «Era justo, era! que a pequena aos domingos e dias santos lhe fizesse companhia!» E então, para ver a filha, tinha que ir ao collegio nos dias de semana. Quasi sempre levava-lhe presentes de doce, fructas, e perguntava-lhe se precisava de roupa ou de calçado. Mas, um bello dia, apresentou-se tão ebrio, que a directora lhe negou a entrada. Desde essa occasião, Jeronymo teve vergonha de lá voltar, e as suas visitas á filha tornaram-se muito raras.
Tempos depois, Senhorinha entregou á mãe uma conta de seis mezes da pensão do collegio, com uma carta em que a directora negava-se a conservar a menina, no caso que não liquidassem promptamente a divida. Piedade levou as mãos á cabeça: «Pois o homem já nem o ensino da pequena queria dar?! Que lhe valesse Deus! onde iria ella fazer dinheiro para educar a filha?!»
Foi á procura do marido; já sabia onde elle morava. Jeronymo recusou-se, por vexame; mandou dizer que não estava em casa. Ella insistio; declarou que não arredaria d'alli sem lhe fallar; disse em voz bem alta que não ia lá por elle, mas pela filha, que estava arriscada a ser expulsa do collegio; ia para saber que destino lhe havia de dar, porque agora a pequena estava muito taluda para ser engeitada na roda!
Jeronymo appareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado que não tem animo de deixar o vicio. A mulher, ao vel-o, perdeu logo toda a energia com que chegára e com moveu-se tanto, que as lagrimas lhe saltaram dos olhos ás primeiras palavras que lhe dirigio. E elle abaixou os seus e fez-se livido defronte d'aquella figura avelhantada, de pelles vazias, de cabellos sujos e encanecidos. Não lhe parecia a mesma! Como estava mudada! E tratou-a com brandura, quasi a pedir-lhe perdão, a voz muito expremida no aperto da garganta.