O padeiro entrou na estalagem, com a sua grande cesta á cabeça e o seu banco de páo fechado debaixo do braço, e foi estacionar em meio do pateo, a espera dos freguezes, pousando a canastra sobre o cavallete que elle armou promptamente. Em breve estava cercado por uma nuvem de gente. As crianças adulavam-no, e, á proporção que cada mulher ou cada homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o peito. Uma vacca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando tristemente o seu chocalho, de porta em porta, guiada por um homem carregado de vasilhame de folha.

O zum-zum chegava ao seu apogeu. A fabrica de massas italianas, ali mesmo da visinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o seu arfar monotono de machina a vapor. As corridas até á venda reproduziam-se, transformando-se n'um verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no logar das bicas apinhavam-se latas de todos os feitios, sobresahindo as de kerozene com um braço de madeira em cima; sentia-se o trapejar da agoa cahindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos córadoiros a roupa que ficára de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados portuguezes e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro.

E, durante muito tempo, fez-se um vae-vem de mercadores. Appareceram os taboleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de boi; só não vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no cortiço. Vieram os ruidosos mascates, com as suas latas de quinquilharia, com as suas caixas de candieiros e objectos de vidro e com o seu fornecimento de caçarolas e chocolateiras de folha de Flandres. Cada vendedor tinha o seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com as cestas do peixe dependuradas, á moda de balança, de um páo que elle trazia ao hombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro guincho estridente e guttural para surgirem logo, como por encanto, uma enorme variedade de gatos, que vieram correndo acercar-se d'elle com grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas arregaçadas e miando supplicantemente. O sardinheiro os affastava com o pé, emquanto vendia o seu peixe á porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cuidadosamente tapava mal servia ao freguez. Para ver-se livre por um instante dos importunos era necessario atirar para bem longe um punhado de sardinhas, sobre o qual se precipitava logo, aos pulos, o grupo dos pedinchões.

A primeira que se pôz a lavar foi a Leandra, por alcunha a «Machona», portugueza feroz, berradora, pulsos cabelludos e grossos, anca de animal do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Anna das Dores, a quem só chamavam a «das Dores» e outra donzella ainda, a Nênêm, e mais um filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que gritava tanto ou melhor que a mãe. A das Dores morava em sua casinha á parte, mas toda a familia habitava no cortiço.

Ninguem ali sabia ao certo se a Machona era viuva ou desquitada; os filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, affirmavam que fôra casada e que largára o marido para metter-se com um homem do commercio; e que este, retirando-se para a terra e não querendo soltal-a ao desamparo, deixara o socio em seu logar. Teria vinte e cinco annos.

Nênêm desesete. Espigada, franzina e forte, com uma prôazinha de orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos rapazes que a queriam sem ser para casar. Engommava bem e sabia fazer roupa branca de homem com muita perfeição.

Ao lado da Leandra foi collocar-se á sua tina a Augusta Carne Molle, brasileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta annos, soldado de policia, pernostico, de grande bigode preto, queixo sempre escanhoado e um luxo de calças brancas emgommadas e botões limpos na farda, quando estava de serviço. Tambem tinham filhos, mas ainda pequenos, e um dos quaes, a Jujú, vivia na cidade com a madrinha que se encarregava d'ella. Esta madrinha era uma cocote de trinta mil réis para cima, a Léonie, com sobrado na cidade. Procedencia franceza.

Alexandre, em casa, á hora de descanso, nos seus chinellos e na sua camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem, conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar as calças de brim, ninguem mais lhe via os dentes e então a todos fallava tezo e por cima do hombro. A mulher, a quem elle só dava tu quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial no cortiço, honestidade sem merito, porque vinha da indolencia do seu temperamento e não do arbitrio do seu caracter.

Junto d'ella pôz-se a trabalhar a Leocadia, mulher de um ferreiro chamado Bruno, portugueza pequena e socada, de carnes duras, com uma fama terrivel de leviana entre as suas visinhas.

Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ella dispunha para benzer erysipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados á navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabellos lisos, escorridos e ainda retintos apezar da idade. Chamavam-lhe «Bruxa.»