Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira, mulata antiga, muita séria e asseada em exagero: a sua casa estava sempre humida das consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o máo humor punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a raiva era grande, corria a buscar um balde d'agua e descarregava-o com furia pelo chão da sala. A filha tinha quinze annos, a pelle de um moreno quente, beiços sensuaes, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ella estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não cedia, nem á mão de Deus Padre, aos rógos de João Romão, que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no peso das compras que Florinda fazia diariamente á venda.

Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel, porque ali na estalagem lhe dispensavam todos certa consideração, privilegiada pelas suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento: uma pobre mulher comida de desgostos. Fôra casada com o dono de uma casa de chapéos, que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha e fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe mestre até de francez. Tinha uma cara macilenta de velha portugueza devota, que já foi gorda, bochechas molles de pellangas rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da bocca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre chorosos e engolidos pelas palpebras. Puxava em bandós sobre as fontes o escasso cabello grisalho untado de oleo de amendoas doces. Quando sahia á rua punha um eterno vestido de seda preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um chale encarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio pyramidal. Da sua passada grandeza só lhe ficára uma caixa de rapé de oiro, na qual a inconsolavel senhora pitadeava agora, suspirando a cada pitada.

A filha era a flôr do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha, Bonita, posto que enfermiça e nervosa ao ultimo ponto; loira, muito pallida, com uns modos de menina de boa familia. A mãe não lhe permittia lavar, nem engommar, mesmo porque o medico o prohibira expressamente.

Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço do commercio, estimado do patrão e dos collegas, com muito futuro, e que a adorava e conhecia desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse já. É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito annos, não tinha ainda pago á natureza o cruento tributo da puberdade, apezar do zelo da velha e dos sacrificios que esta fazia para cumprir á risca as prescripções do medico e não faltar á filha o menor desvelo. No emtanto, coitadas! d'aquelle casamento dependia a felicidade de ambas, porque o Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de quem mais tarde havia de ser socio, tencionava, logo que mudasse de estado, restituil-as ao seu primitivo circulo social. A pobre velha desesperava-se com o facto e pedia a Deus, todas as noites, antes de dormir, que as protegesse e conferisse á filha uma graça tão simples que elle fazia, sem distincção de merecimento, a quantas raparigas havia pelo mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma d'esta vida consentiria que a sua pequena casasse antes de «ser mulher», como dizia ella. E «que deixassem lá fallar o doutor, entendia que não era decente, nem tinha geito, dar homem a uma moça que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vel-a solteira toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquelle inferno da estalagem!»

Lá no cortiço estavam todos a par d'esta historia: não era segredo para ninguem. E não se passava um dia que não interrogassem duas e tres vezes á velha com estas phrases:

—Então? já veio?

—Porque não tenta os banhos de mar?

—Porque não chama outro medico?

—Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo!

A velha respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ella. E suspirava resignada.