—Bom coração tem ella, até de mais, que não guarda um vintém pr'o dia d'amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo!
—Depois é que são ellas!... O João Romão já lhe não fia!
—Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ella tem dinheiro é porque o gasta mesmo!
E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar, e a bater, e a torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercicio. Ao passo que, em torno da sua tagarelice, o cortiço se enbandeirava todo de roupa molhada, donde o sol tirava scintillações de prata.
Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos córadoiros tinha reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente ao nascente, caiadinhas de novo, reverberavam illuminadas, offuscando a vista. Em uma das janellas da sala de jantar do Miranda, Dona Estella e Zulmira, ambas vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda, indifferentes á agitação que ia lá em baixo, muito esquecidas na sua tranquillidade de entes felizes.
Entretanto, agora o maior movimento era na venda á entrada da estalagem. Davam nove horas e os operarios das fabricas chegavam-se para o almoço. Ao balcão o Domingos e o Manoel não tinham mãos a medir com a criadagem da visinhança; os embrulhos de papel amarello succediam-se, e o dinheiro pingava sem intermittencia dentro da gaveta.
—Meio kilo de arroz!
—Um tostão de assucar!
—Uma garrafa de vinagre!
—Dois martellos de vinho!