—Dois vintens de fumo!
—Quatro de sabão!
E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons.
Ouviam-se protestos entre os compradores:
—Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo!
—O peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer!
—Seu Manoel, não me demore essa manteiga!
Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas no quadril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma panella á outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admittira-se um novo caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada commensal que ia chegando, recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminavel lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite frito predominava. O paraty circulava por todas as mezas, e cada caneca de café, de louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho queimado. Uma algazarra medonha, em que ninguem se entendia! Crusavam-se conversas em todas as direcções, discutia-se a berros, com valentes punhados sobre as mesas. E sempre a sahir, e sempre a entrar gente, e os que sahiam, depois d'aquella comesaina grossa, iam radiantes de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar.
N'um banco de páo tosco, que existia do lado de fóra, junto á parede e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte, chinellos de couro crú, esperava, havia já uma boa hora, para fallar com o vendeiro.
Era um portuguez de seus trinta e cinco a quarenta annos, alto, espadaúdo, barbas asperas, cabellos pretos e mal tratados cahindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um chapéo de feltro ordinario; pescoço de touro e cara de Hercules, na qual os olhos todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranquilla bondade.