Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol, outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a picareta; de outro afeiçoavam lagedos a ponta de picão; mais adiante faziam parallelepipedos a escopro e macete. E todo aquelle retimtim de ferramentas, e o martellar da forja, e o côro dos que lá em cima brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zuada ao longe, que vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a idéa de uma actividade feroz, de uma luta de vingança e de odio. Aquelles homens gottejantes de suor, bebedos de calor, desvairados de insolação, a quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de demonios revoltados na sua impotencia contra o impassivel gigante que os contemplava com desprezo, imperturbavel a todos os golpes e a todos os tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe abrissem as entranhas de granito.

O membrudo cavouqueiro havia chegado á fralda do orgulhoso monstro de pedra; tinha-o cara a cara, medio-o de alto abaixo, arrogante, n'um desafio surdo.

A pedreira mostrava n'esse ponto de vista o seu lado mais imponente. Descomposta, com o escalavrado flanco exposto ao sol, erguia-se altaneira e desassombrada, affrontando o céo, muito ingreme, lisa, escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe escorriam pela cyclopica nudez com um effeito de teias de aranha. Em certos logares, muito alto do chão, lhe haviam espetado alfinetes de ferro, amparando, sobre um precipicio, miseraveis taboas que, vistas cá de baixo, pareciam palitos, mas em cima das quaes uns atrevidos pigmêos de forma humana equilibravam-se, desfechando golpes de picareta contra o gigante.

O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lastima. O seu gesto desaprovava todo aquelle serviço.

—Veja lá! disse elle, apontando para certo ponto da rocha. Olhe pr'aquillo! Sua gente tem ido ás cegas no trabalho d'esta pedreira! Deviam atacal-a justamente por aquel'outro lado, para não contrariar os veios da pedra. Esta parte aqui é toda granito, é a melhor! Pois olhe só o que elles têm tirado de lá—umas lascas, uns calháos que não servem para nada! É uma dôr de coração ver estragar assim uma peça tão boa! Agora o que hão de fazer d'essa cascalhada que ahi está senão macacos? E brada aos céos, creia! ter pedra d'esta ordem para empregal-a em macacos!

O vendeiro escutava-o em silencio, apertando os beiços, aborrecido com a idéa d'aquelle prejuizo.

—Uma porcaria de serviço! continuou o outro. Ali onde está aquelle homem é que deviam ter feito a broca, porque a explosão punha abaixo toda esta aba que é separada por um veio. Mas quem tem ahi o senhor capaz de fazer isso? Ninguem; porque é preciso um empregado que saiba o que faz; que, se a polvora não fôr muito bem medida, nem só não se abre o veio, como ainda succede ao trabalhador o mesmo que succedeu ao outro! É preciso conhecer muito bem o trabalho para se poder tirar partido vantajoso d'esta pedreira! Boa é ella, mas não nas mãos em que está! É muito perigosa nas explosões; é muito em pé! Quem lhe lascar fogo não póde fugir senão para cima pela corda, e se o sujeito não fôr fino leva-o o demo! Sou eu quem o diz!

E depois de uma pausa, acrescentou, tomando na sua mão, grossa como o proprio cascalho, um parallelipipedo que estava no chão:—Que digo eu?! Cá está! Macacos de granito! Isto até é uma coisa que estes burros deviam esconder por vergonha!

Acompanhando a pedreira pelo lado direito e seguindo-a na volta que ella dava depois, formando um angulo obtuso, é que se via quanto era grande. Suava-se bem antes de chegar ao seu limite com a matta.

—Que mina de dinheiro!... dizia o homemzarrão, parando enthusiasmado defronte do novo panno de rocha viva que se desdobrava na presença d'elle.