Do meio para o fim do jantar o barulho em ambas as casas era medonho. No numero 8 berravam-se brindes e cantos desafinados. O portuguez amigo da das Dôres, já desengravatado e com os braços á mostra, vermelho, lustroso de suor, intumescido de vinho virgem e leitão de forno, repotreava-se na sua cadeira, a rir forte, sem calar a bocca, com a camisa a espipar-lhe pela braguilha aberta. O sujeito que o accompanhára fazia fosquinhas a Nênêm, protegido no seu namoro por toda a roda, desde a respeitavel Machona até ao endemoninhado Agostinho, que não ficava quieto um instante, nem deixava socegar a mãe, gritando um contra o outro como dois possessos. Florinda, sempre muito risonha e esperta, divertia-se a valer e, de vez em quando, levantava-se da mesa, para ir de carreira levar lá fora ao numero 12 um prato de comida á sua velha que, á ultima hora, vindo-lhe o aborrecimento, resolvêra não ir ao jantar. Á sobremesa o esfogueado amigo da dona da casa exigio que a amante se lhe assentasse nas coxas e dava-lhe beijos em presença de toda a companhia, o que fez com que Dona Isabel, impaciente por afastar a filha d'aquelle inferno, declarasse que sentia muito calor e que ia lá para a porta esperar mais á fresca o café.
Em casa da Rita Bahiana a animação era ainda maior. Firmo e Porfiro faziam o diabo, cantando, trocando bestialogicos, arremedando a falla dos pretos cassanges. Aquelle não largava a cintura da mulata e só bebia no mesmo copo com ella; o outro divertia-se a perseguir o Albino, galanteando-o affectadamente, para fazer rir á sociedade. O lavadeiro indignava-se, dava o cavaco. Leocadia, a quem o vinho produzia delirios de hilaridade, torcia-se em gargalhadas, tão fortes e sacudidas que desconjuntavam a cadeira em que ella estava; e, muito lubrificada pela bebedeira, punha os pezados pés sobre os de Porfiro, roçando as pernas contra as d'elle e deixando-se apalpar pelo capadocio. O Bruno, defronte d'ella, rubro e suado como se estivesse a trabalhar na forja, fallava e gesticulava sem se levantar, praguejando ninguem sabia contra quem. O Alexandre, á paizana, assentado ao lado da mulher, conservava quasi toda a sua seriedade e pedia que não fizessem tanto barulho porque podiam ouvir da rua. E notou, em voz mysteriosa, que o Miranda tinha vindo já espiar por varias vezes da janella do sobrado.
—Que espie as vezes que quizer! bradou a Rita. Pois então a gente não é senhora de estar um domingo em casa a seu gosto e com os amigos que entender?... Que vá pr'o diabo que o lixe! Eu não como nem bebo do que é d'elle!
Os dois mulatos e o Bruno tambem eram da mesma opinião. «Pois então! Desde que se não offendia, nem prejudicava a safardana nenhum com aquelle divertimento, não havia de que fallar!»
—E que não entiquem muito, ameaçou o Firmo, que commigo é nove! E o trunfo é páos!
O Porfiro exclamou:
—Se se incommodam com a gente ... os incommodados são os que se mudam! Ora pistolas!
—O domingo fez-se pr'a gosar!... resmungou o Bruno, deixando cahir a cabeça nos braços crusados sobre a mesa.
Mas ergueu-se logo, cambaleando, e acrescentou, despindo o braço direito até ao hombro:—Elles que se façam finos, que os racho!
O Alexandre procurou acalmal-o, dando-lhe um charuto.