Em uma outra casinha do cortiço acabava de estalar uma nova sobremesa, engrossando o barulho geral: era o jantar de um grupo de italianos mascates, onde o Delporto, o Pompêo, o Francesco e o Andréa representavam as principaes figuras. Todos elles cantavam em coro, mais afinados que nas outras duas casas; quasi, porém, que se lhes não podiam ouvir as vozes, tantas e tão estrondosas eram as pragas que soltavam ao mesmo tempo. De quando em quando, de entre o grosso e macho vozear dos homens, esguichava um falsete feminino, tão estridente que provocava replica aos papagaios e aos perus da visinhança. E, d'aqui e d'ali, iam rebentando novas algazarras em grupos formados cá e lá pela estalagem. Havia nos operarios e nos trabalhadores decidida disposição para pandegar, para aproveitar bem, até ao fim, aquelle dia de folga. A casa de pasto fermentava revolucionada, como um estomago de bebado depois de grande brodio, e arrotava sobre o pateo uma baforada quente e ruidosa que entontecia.

O Miranda appareceu furioso á janella, com o seu typo de commendador, a barriga empinada pr'a frente, de paletó branco, um guardanapo ao pescoço e um trinchante empunhado na destra, como uma espada.

—Vão gritar pr'a o inferno, com um milhão de raios! berrou elle, ameaçando para baixo. Isto tambem já é de mais! Se não se calam, vou d'aqui direito chamar a policia! Sucia de brutos!

Com os berros do Miranda muita gente chegou á porta de casa, e o côro de gargalhadas, que ninguem podia conter n'aquelle momento de alegria, ainda mais o pôz fóra de si.

—Ah, canalhas! O que eu devia fazer era atirar-lhes d'aqui, como a cães damnados!

Uma vaia unisona echoou em todo o pateo da estalagem, emquanto em volta do negociante surgiam varias pessoas, puxando-o para dentro de casa.

—Que é isso, Miranda! Então! Estás agora a dar palha?...

—O que elles querem é que encordôes!...

—Saia d'ahi, papáe!

—Olhe alguma pedrada, esta gente é capaz de tudo!