Jeronymo, com effeito, pertencia-lhe muito menos agora do que d'antes. Mal se chegava para ella; os seus carinhos eram frios e distrahidos, dados como por condescendencia; já lhe não affagava os rins, quando os dois ficavam a sós, malucando na sua vida commum; agora nunca era elle que a procurava para o matrimonio, nunca; se ella sentia necessidade do marido, tinha de provocal-o. E, uma noite, Piedade ficou com o coração ainda mais apertado, porque elle, a pretexto de que no quarto fazia muito calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sofá da salinha. Desde esse dia não dormiram mais ao lado um do outro. O cavouqueiro arranjou uma rede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em casa da Rita.

Uma outra noite a coisa ainda foi peior. Piedade, certa de que o marido não se chegava, foi ter com elle; Jeronymo fingio-se indisposto, negou-se, e terminou por dizer-lhe, repellindo-a brandamente:

—Não te queria fallar, mas ... sabes? deves tomar banho todos os dias e ... mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se muito! É preciso trazer o corpo sempre lavado, que senão cheira-se mal!... Tem paciencia!

Ella desatou a soluçar. Foi uma explosão de resentimentos e desgostos que se tinham accumulado no seu coração. Todas as suas magoas rebentaram n'aquelle momento.

—Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso! Ella continuou a soluçar, sem folego, dando arfadas com todo o corpo.

O cavouqueiro, acrescentou no fim de um intervallo:

—Então que é isto, mulher? Pôes-te agora a fazer tamanho escarcéo, nem que se cuidasse de coisa séria!

Piedade desabafou:

—E que já não me queres! Já não és o mesmo homem para mim! D'antes não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal!

E os soluços recrudesciam.