XVI
Ia o inverno quasi no fim, e, apesar de não estar frio, os ultimos dias tinham vindo tão chuvosos e tristes que a viscondessa se conservava junto do fogo n’um enregelamento d’alma tiritante de abandonada e tediosa.
O que lhe custára esse ultimo verão que passára, sacrificada, sem ir gosar os seus mezes de verdadeiras férias na casa de provincia em que tinha nascido e onde lhe andavam esparsas as melhores saudades da sua vida, diziam-no bem o empallidecimento das suas faces, o amortecimento dos seus bellos olhos de peninsular. A melancolia que a principio fôra uma ligeira sombra, como nuvem que se esgarça e dilue em céo puro, começava a avolumar-se, carregando-lhe a expressão e avelhentando-a quasi.
Era a impressão que teria quem lhe podesse vêr o ar mortiço, o quebramento de forças e de vontade que a tinha alli em frente do fogão,—um livro aberto, no regaço, os olhos presos na chamma que se avivava ou amortecia, seguindo caprichos de fórmas e phantasias de desenhos varios.
N’aquella hora triste que precede a noite, quando o céo enlividece com a ultima claridade de um dia que se arrastou pardacento e molle, e nas ruas encharcadas o gaz começa a reflectir-se em largas manchas espelhadas, os pregões n’um rouquejar de miseria atiram para a vida o ultimo soluço e os que passam açodados sob a chuva têm o ar de sombras que se esgueiram e desapparecem mysteriosamente na noite, a viscondessa sentia-se tão desoladamente só, tão abandonada de gosto e desejo que pouco mais tinha da vida além do brilho dos olhos, que conservava presos no faiscamento do brazido.
Cahira, havia mezes, n’uma d’essas tristezas vagas e sem causa aparente, que nenhum divertimento consegue afugentar e que já na medicina é tida como prognostico de doença que é das mais teimosas e caprichosas que atacam as almas e os cerebros rudemente experimentados pelo trabalho ou pelo soffrer.
É que a paixão de Bella e João, observada e sentida de perto, como se a sua alma lhe fôsse abrigo, levara-lhe todo um anno n’uma sobre-excitação, n’uma alegria que a volvera criança, que a fizera viver essa época unica da sua existencia em que amara, fôra amada e sonhara a vida um roseo sonho sem despertar, que julgou a realidade.
Ao lado da amiga, aconselhando-a, acompanhando-a e guiando-a em todo o complexo assumpto do enxoval, o seu espirito chegaria, talvez, a possuir-se da ideia de que era sua aquella felicidade.
Depois, com o casamento d’elles, a solidão fizera-se-lhe mais completa, a sua alma cahira mais fundo na indifferença d’uma existencia que não tinha um fim.