É certo que não abandonara o que chamava os seus deveres de mulher de sociedade, tendo camarote em S. Carlos, indo ás primeiras representações, frequentando as festas elegantes, dando o seu nome para todos os divertimentos de caridade, recebendo semanalmente n’umas reuniões intimas a que ia toda a Lisboa, ella que não tinha intimidade com ninguem.

Mas tudo isso o fazia por habito, com o espirito alheado e desinteressado d’aquella vida em que o corpo se lhe fatigava.

Não obstante,—tão grande é em nós essa força!—adquirida pelo uso conseguia communicar ás suas festas uma alegria de que estava bem longe, e tinha espirito e intelligencia bastantes para intellectualisar mesmo essas reuniões, que havia dois invernos estavam na moda e para as quaes se mettia empenhos para ser convidado, como se fosse a iniciação da suprema elegancia ser recebido n’aquelle interior aristocratico.

Na verdade, a severa compostura do seu porte e a graça exangue do seu sorriso diziam bem com o rico mobiliario herdado e que o visconde acrescentava sempre n’um enthusiasmo de apaixonado bric-a-braquista.

Entre os pesados cadeirões com pés de garra, os tamboretes de velludo lavrado, os pannos d’Arrás forrando as paredes onde os avós se alinhavam em solemnes attitudes, os reposteiros armoriados, os bufetes e contadores, n’uma uniformidade de estylo que era a maior preocupação do visconde, essa nobre figura de mulher d’um ancestral perfume como que completava o conjuncto.

No entanto, a verdadeira alma de todas aquellas festas era o proprio visconde, que nos ultimos tempos mudara as suas predilecções e habitos, a quasi ser outro homem. Conservava-se sempre no salão junto das senhoras, indo de fugida e contrariado á sala de jogo, respondendo distrahidamente a quem o abordasse para negocios e politica.

Tornára-se o idolo das mulheres, que lisongeava nos seus gostos e caprichos, discutindo modas, organisando festas onde podiam exibir o encanto dos sorrisos e o luxo dos vestidos copiados dos grandes retratos de mestres, escolhendo as musicas com que as fazia dançar, e não deixando fugir os rapazes para as salas de fumo, sendo emfim a alma de toda uma sociedade que vive para se divertir.

Tinha ditos de espirito que faziam época, e a pessôa que distinguisse uma vez tinha a certeza de estar em evidencia, pelo menos oito dias.

Mas eram ainda as mulheres as suas mais sinceras admiradoras, porque lhes deviam momentos de orgulho satisfeito, porque as envaidecia e lisongeava sem o dizer, só porque era um homem d’espirito que se divertia e se mostrava alegre junto d’ellas.

Por isso sorriam n’uma tacita desculpa, quando os descontentes e os adversarios boquejavam sobre a sua grande intimidade com o Braga usurario, que aproveitava a situação politica do Visconde para fazer o seu jogo e augmentar a fortuna, sem embargo do fausto em que a Candida vivia.