Tambem esta se tornára a mulher da moda, em que todos fallavam, que as modistas vestiam como figurino, que os homens cortejavam, que as outras invejavam, procurando-a e convidando-a, não obstante, para todas as festas, porque seria uma falta de actualidade imperdoavel não mostrar entre as flores das grandes jarras da China, os espelhos de Veneza e os biombos laqueados, esse busto de mulher que se desnudava com orgulho e tinha soberbas attitudes de marmore antigo.

Sorria, sentia-se feliz, quasi bondosa á força de felicidade n’aquelle meio elegante e futil que correspondia a todas as aspirações do seu espirito. Se n’elle tivesse nascido, se não tivesse consumido a infancia no sonho ardente de todos os gosos que o dinheiro pode trazer a uma alma que de vaidades vive, não teria sido a mesma Candida que empurrara para a sepultura a que lhe fôra mais do que irmã.

Perversamente egoista e ambiciosa era tão culpada por isso como pela belleza fatal que a tornara uma força da natureza.

Filha do meio, herdeira d’um sangue que o alcool envenenara, adulada em vez de severamente orientada pela educação, era como bella e orgulhosa flor cujo pé mergulhado no pantano de morte e podridão nutre o encanto das suas petalas.

Desvanecida a anthipathia que a principio inspirara á Viscondessa, tornara-se á força de delicadezas e blandicias a sua amiga mais intima, quasi da familia, um dos atractivos das suas festas. E n’esse convivio aprendêra o segredo de usar o luxo com a indifferença elegante, que raro alcançam os ambiciosos que a fortuna visitou tarde, já depois da miseria lhes ter imprimido a marca de vulgaridade.

A Viscondessa é que não era feliz n’um meio onde tudo é falso mas brilhante, onde só se cuida de apparencias, n’uma sociedade que se acotovella desrespeitosa na ambição de gosar e subir, n’uma sociedade que despresa almas e sómente se curva ao dinheiro e ao poder.

D’ahi aquelle eterno sorriso, aquelle deixar correr a existencia sem lagrimas nem alegrias, que lhe dava o ar mortiço e egual de quem anda por habito no mundo, sem energia nem desejo de correr á feira d’interesses e luctas que desvaria quasi todos.

Sentia-se só. Faltava-lhe a companhia de Isabella Burns, cujo espirito arejado e vivo se tornara uma necessidade do seu coração. Porque, se é verdade que Bella tinha uma dôce e nobre alma feita para comprehender os mais elevados ideaes, no seu espirito deixara fundo traço a educação prática que recebera. Era uma meredional pelo queimor do sangue, pela vivacidade da phrase e pela paixão; mas tinha a dar-lhe a fórma viavel no mundo o altivo bom senso, que a tornava um espirito prático, um d’estes caracteres que as mesquinhas contrariedades não quebrantam e á força de persistente energia realisam o que no dizer da maior parte não passa de utopias de sonhadores.

As suas cartas vinham cheias de enthusiasmo pelos trabalhos já executados e vibrantes de esperança pelo muito que ainda tencionavam fazer. Fôra por ellas que a viscondessa soubera da intriga que tornara o velho abbade uma victima das invejas e ambições do cura, e fôra por ellas tambem que lhe constara a entrada para o hospital e para o asylo da Misericordia das irmãs hospitaleiras, tornados assim succursaes de conventos e collegios, com pretexto de beneficencia... O que podiam fazer os seus amigos n’uma terra assim illaqueada, com a protecção interesseira do Maximiano que sem embargo se apregoava ainda um velho e convicto liberal?!... Por ella, sem força nem vontade para luctar, decerto que desistiria limitando-se a fazer o bem compativel com as suas forças. Mas Isabella protestava.—Que lhe importava que todos esses burguezes roidos de ambições e mesquinhos de interesse preferissem continuar a viver na ignorancia e na falsidade?! Ella oppunha-lhe o futuro com a fundação da sua escola de enfermeiras para a qual o tio lhe abrira já um crédito no banco de Londres, opporia a illustração e a intelligencia á rotina e á ignorancia. Quando tivesse no seu instituto enfermeiras bastantes, educadas segundo os preceitos da sciencia e da hygiene moderna, com ellas se apresentariam a todos os medicos dos hospitaes portugueses e veria então a Maria Helena se esses homens, que representam a sciencia e são como que os fiadores da vida de seus irmãos, teriam coragem, ainda os mais reaccionarios, para lhes preferirem outras, ainda que bondosas, mas sem illustração ou curso que as faça uteis collaboradoras na obra da sciencia. Esperava fazer em Portugal a luminosa obra que em Inglaterra realisou Miss Florence Nightingale, assim vivessem... E com respeito a asylos e escolas o seu projecto era o mesmo... A não ser que n’este pais já se tivesse obliterado por completo a noção da justiça, claro que os mais bem apercebidos para a lucta é que seriam preferidos...

Maria Helena duvidava... tinha já visto tanto e sentia-se tão desanimada de triumphos que a politiquice e a mariolada eleitoral não bafejassem, que sem querer o espirito se lhe entravava na descrença que aliena tantos corações honestos, que quebra tanta iniciativa proveitosa.