—«Sério?! Elle aposenta-se?
—«Mandaram me hoje dizer.
—«Que logarzão!... Em Lisboa, e fazendo quanto quizer!...
Pulso livre, claro—e a meia voz lá foram conversando até á sala d’entrada, onde, em volta d’uma grande meza, se reuniam os jogadores de polis banque. Aos lados, em mezitas pequenas, estavam os caturras do voltarete, do whist, do boston ou do sólo.
Mal o conselheiro appareceu, quasi todos os logares do polis se lhe offereceram amavelmente; logo elle, unctuoso, sempre risonho, com maciezas de voz e de phrase muito estudadas:
—Oh, meus amigos, por quem são! Eu fico bem de pé, não se encommodem... mas, ante o protesto geral, foi sentar-se á direita do banqueiro, o Motta tabellião, um bilioso de cabello e bigode pintado e lunetas brilhantes á força de as limpar nas circumstancias graves. Sómente a face se lhe distendia em riso de satisfação quando, como agora, as notas, as moedas de prata e as marcas d’osso que substituiam o cobre, se lhe amontoavam diante dos olhos avaros.
Vendo o Maximiano acceitar o logar da direita, estremeceu. Era uma honra, na verdade, mas tambem um perigo, porque ninguem como elle, acostumado ao grande jogo de Lisboa e Cascaes, para abafar uma banca logo á primeira. O baralho tremeu-lhe entre os dedos ao dar cartas ao visinho.
Mas o conselheiro não jogou e um sorrisinho de alivio veio desfranzir-lhe os beiços e mostrar os dentes apodrecidos. Já fallava, já ria dos pontos que iam perdendo pequenas paradas, e pagava sem regatear ás senhoras.
—«Jógo!—disse do outro lado da meza a mulher do Maximiano, que estendia sobre o panno verde as mãos cheias d’anneis de brilhantes.
—«O sr. conselheiro não jóga no jogo da sr.ᵃ D. Maria Adelaide? perguntou o Motta, cortez.