Na escola primaria comprehenderiam quanto é agradavel e facil ensinar crianças, quando a familia ou a primeira escola as enviarem já com o raciocinio desabrochado e com certas noções da vida e da natureza que as rodeia.
Nos hospitaes adiquiririam aquella prática de tratar os pequeninos doentes, que tão custosamente obtêm as mães quando a alma lhes sangra pelo soffrimento dos seus filhitos.
Nas escolas-oficinas, nas escolas práticas de cosinha, de costura e de governo de casa, em toda a parte onde se trabalhasse pela criança, a mulher solteira poderia formar o seu caracter, conhecer e fortalecer as suas aptidões, fazer a si mesmo a educação que a tornasse util a todos e lhe desse para o futuro a certeza de poder contar comsigo para provêr á propria subsistencia.
A menina solteira no nosso paiz tem uma vida sem responsabilidades sociaes e a maior parte das vezes sem utilidade nenhuma.
Anda na escola ou no collegio—as que não vão para os internatos—até a saia lhe descer do joelho e roçar no cano da bóta. Aos primeiros signaes da puberdade, os pais atarantam-se, num pánico de grandes perigos a recear, e a pequena recolhe a casa.
Depois, se a fortuna o comporta, vem o professor particular ensinar o que póde a quem não estuda nem deseja saber, desde a pintura sem desenho até á musica sem rudimentos. As que não pódem ter professores ficam em casa com o pouco que aprenderam, a esperar que os annos, na sua fugitiva carreira, lhes tragam o noivo correspondente.
Vestem com elegancia, mas não sabem fazer os seus vestidos; sabem pôr sobre os seus cabellos frisados o mais disforme e complicado chapéo, mas não o sabem enfeitar por suas proprias mãos; não costuram nem bordam a roupa da casa; não talham as suas camisas; não cosinham ou sabem dirigir o jantar da familia; não tomam a si o encargo de criar e educar os irmãosinhos mais novos. As mães poupam-nas o mais possivel. É o seu bom tempo—dizem. Deixá-las, lá virá época em que tudo aprendem á sua custa!...
Pobres dellas! Não viram, no seu exemplo, quantas amarguras representa essa aprendizagem á propria custa, desde o mau humor do marido que vê tudo feito por mãos inexperientes até ao desrespeito das criadas por quem não as sabe mandar nem ensinar.
A rapariga portuguêsa não é um sêr util e respeitavel, de que os rapazes sejam fraternaes companheiros, lendo os mesmos livros, interessando-se pelos mesmos assumptos, conversando naturalmente em qualquer ocasião e com qualquer pessôa que se encontrem.
Não, ella é uma criatura no papel passivo de pretendente, esperando vagamente o numero da loteria—que lhe dê o premio.