A mulher de ha trinta annos e a mulher de hôje

Se perguntarmos aos que ora entram com desplante na vida, julgando que nada devem ao passado, que o presente é obra sua, e o futuro lhes pertence, o que era a ilustração da mulher portuguêsa de ha trinta annos, não haverá ahi rapaz ou rapariga de mediana educação que não solte uma gargalhada escarninha, ou que, ao menos, não franza a bôca num tregeitar de troça.

É que essa época de romantismo agudo avulta a nossos olhos a turba desgrenhada das jovens que recitavam ao piano, com os olhos no infinito; que dormiam de colete para adelgaçarem a cinta, defumavam o rosto para obterem a palidez interessante que a moda reclamava ás heroinas tisicas, que sonhavam com o menestrel choroso que por noites luarentas as viria buscar para um eterno duo de amôr, na cabana ideal onde se vivia... do ar.

Essas eram as exageradas de todas as escolas, as desvairadas de todos os tempos. Mas ao lado dellas, as sãs, as ajuisadas, que liam os mesmos livros e conheciam as mesmas poesias, não se deixavam levar em excessos de romantismos piegas, mas amavam os seus poetas e comprehendiam a literatura do seu tempo.

Não ha por ahi senhora da geração de nossas mães, rudimentarmente educada que fosse, que não tenha chorado com os romances de Camillo, que não tenha discutido e amado Julio Diniz, que não conheça Garrett e Herculano, que se não lembre com saudade da Lua de Londres, que não tenha recitado Soares de Passos, Castilho, Palmeirim e Thomaz Ribeiro, que não tenha cantado essas poesias, que entraram no ouvido de todos em modilhas e cantatas, compostas por musicos ignorados.