Isto numa época em que a mulher não tinha, como a de hôje, facilidade em se instruir, em que a instrução por essas provincias fóra era um caso esporadico, em que os liceus lhe não eram franqueados e nas escolas superiores se falava do exemplo de Publia Hortensia de Castro, que cursou a Universidade vestida de homem, como dum caso fabuloso, porventura menos provavel do que a sabedoria de Minerva, a deusa mitologica da sciencia.

O que significa que a mulher joven ha trinta ou quarenta annos, sem ter a alta cultura duma grande dama da côrte brilhante de D. Manuel, era, sem dúvida, muito superior á de hôje, que não conhece os seus escriptores nem comprehende os seus poetas.

Se bem que a Arte, embora na sua fórma mais intelectual,—a literatura—não possa dar á mulher o grau de conhecimentos, a soma enorme de noções exatas da sciencia que são necessarias para constituir hôje a educação de qualquer criatura regularmente culta, é bem certo que eleva as almas e constitue um dos mais nobres ideais da existencia humana.

«A mulher desconhece os escriptores do seu tempo e deixou de se preocupar pela literatura, porque não temos romancistas que a interessem e os poetas deixaram de lhe falar ao coração...—costuma dizer-se para desculpar uma falta que todos reconhecem e da qual ninguem se confessa culpado.

Seguramente que a maior, se não a unica responsavel, é a mulher que assiste, sem comprehender, ao avançar victorioso da civilisação, que hade expulsar os ignorantes como párias inuteis numa sociedade que se encaminha para a luz.

Poetas e prosadores deixaram, é certo, a azinhaga florida do romantismo para seguirem pela estrada arejada de um novo ideal estético, para uma fórma mais verdadeira e humana. Mas porque os não seguem as mulheres? Porque se quedam numa indiferença que as distanceia do seu tempo, que as torna tão alheias a tudo quanto interessa o homem do seu paiz, da sua sociedade, do seu proprio lar?

Não lêr porque não ha quem escreva a seu gosto no nosso paiz é... apenas uma desculpa. Temos hôje, como sempre tivémos, quem escreva bem. Todos os annos, a par da grande alluvião de livros sem valôr que ficam nos depositos das casas editoras para serem vendidos ao peso do papel, ou dados como brinde a quem compra outros livros, publicam-se os bastantes para saciar a curiosidade vulgar em quem tem o habito da leitura.

O que falta não são os escriptores nem as suas obras.

Falta o público que dê no seu aplauso ou no seu desagrado o incitamento de que precisa todo o artista para fazer obra em que pônha toda a alma, toda a energia do seu espirito, na inspiração de progredir e vencer a concorrencia, que então se dá material e áspera, mas compensadora para os triunfantes.