Quem lê no nosso paiz? Uma minoria de intelectuaes, que preferem a literatura estrangeira, e que a maior parte das vezes não compram sequer os livros portuguêses, que poderão ler de emprestimo ou oferecidos.
Lê o povo bastante, mas o povo das cidades, e principalmente os operarios, os livros dos propagandistas, as brochuras que os chamam á consciencia da sua grande miseria; ou lê os romances sensacionaes, ultimamente, e por felicidade, substituidos pelos grandes romances historicos ás cadernetas, ilustrados, que têm a enorme vantagem—quando não tenham outra—de ser portuguêses e não habituar o povo a dizer nomes disparatados e ridiculos que lhe servem nas traduções.
Não lê no nosso paiz, a grande maioria dos homens, porque não encontram para isso tempo que lhes sobre dos seus afazeres ou da vida dispersada por cafés e clubs, na conversa de conhecidos e amigos encontrados sempre nas horas de sobejo.
Não lêem as mulheres, o que é muito peor. Porque é em toda a parte o grande publico feminino quem lê os poetas e os romancistas, quem assigna os magasines e revistas, quem conhece as mais interessantes brochuras de viagens, quem discute os seus autores, quem faz, emfim, uma reputação literaria.
Entre nós, a não ser nos centros intelectuais de que as mulheres só raramente fazem parte, não se fala em literatura, não se conhecem os escriptores e não ha—o que é significativo—o menor desejo de os conhecer.
Para muitas senhoras que lêem e gostam de lêr é um facto desconsolador o pensarem que serão ridicularisadas e que os ignorantes as alcunharão de sabichonas e doutoras, se por acaso entram em conversa que transponha os limites literarios dos folhetins dos jornaes ou da secção das modas.
Mas será isto motivo bastante para se desinteressarem tão completamente pela literatura do seu paiz?
Fugindo do ridiculo com que fôram tão cruelmente perseguidas as romanticas de ha vinte annos, as mulheres deixaram de lêr com receio de que as chamassem literatas—o epiteto mais desagradavel que podia ser dito a uma senhora que era vista com um livro na mão.
Pararam, indecisas, isto é retrogradaram, porque em civilisação não ha paragens que não sejam retrocessos.
E foi este o motivo porque se deu o afastamento cada vez mais pronunciado da mulher portuguêsa pela arte e pelos artistas do seu paiz e do seu tempo. É desolador este simptoma porque nos mostra como é feita sem elevação moral, nem intellectual, a educação das mulheres que hão de ser as educadoras das futuras gerações. Numas, as que se dizem educadas, os seus conhecimentos são apenas um mostruario vistoso de habilidades e conhecimentos superficiaes, que não iludem ninguem. Outras, conservam-se na mais boçal ignorancia, na mais completa indiferença pelas coisas do espirito.