Dahi em diante, a criança, pela vida e pela alegria da qual ella sacrificaria gostosamente a sua propria vida, dá cada dia um passo que a tornará uma estranha para aquella que lhe devia ser a mais certa e mais respeitada guia.

É quando, cheia de curiosidade, começa a abrir os olhos do espirito, que se não fartam de luz, e pergunta tudo quanto existe, tudo quanto lhe fere a atenção, sempre desperta e voluvel.

As coisas mais simples, como as coisas mais complexas, tudo procura saber e tudo é preciso que se lhe explique duma maneira comprehensivel. É o momento unico de lhe dar noções que nunca mais esquecem e que pela fórma estejam ao alcance dos seus poucos annos e rudimentar inteligencia, mas pela substancia resumem os conhecimentos e verdades que lhe serão uteis pela existencia fóra.

Se a mãe não responde, a criança desinteressa-se de coisas sérias e torna-se futil, ou vae fazer as suas perguntas ao pai, quasi sempre mais culto, e que por esse motivo passará a ser considerado superior á mãe ignorante. Se a mãe, não querendo passar aos olhos da criança por inferior, diz uma coisa ao acaso, que não é precisamente a verdade, o mal é ainda peor porque não tardará que a criança saiba, por estranhos, o contrario do que lhe disseram.

E não imaginem que ella esquecerá, não! Na primeira ocasião saberá mostrar a sua estranhesa.

Cresce: da escola para sujeição, onde a mãe a meteu por ser impossivel tê-la em casa desde os três annos, passa a frequentar as aulas públicas. Tem os seus compendios, que lhe falam de coisas de que não tinha a menor noção; cada passo é uma dificuldade, cada palavra um barranco, cada materia uma novidade, que o professor, entre tantos discipulos a reclamar-lhe a atenção, não tem tempo de aclarar-lhe o sentido. De lagrimas nos olhos, o livro na mão, a criança irá procurar aquella que mais estima, e que mais tem tido chegada ao coração desde que existe, para que lhe explique o que não comprehende. E a pobre mãe não saberá auxilia-la, terá de confessar a sua impotencia, a sua ignorancia, diante do filho que se desespera!

Quantas vezes, indo encontrá-lo a cabecear sobre o livro que não comprehende, a mãe não teria desejo de tirar-lh'o das mãos e, numa clara leitura e uma inteligente explicação, fazê-lo aprehender o sentido que lhe foge?!... mas... a pobre mãe não o poderá fazer, porque não sabe tambem! E quantas vezes a sua revolta de ignorante não se torna uma defesa para a criança mandriona, que repetirá o que lhe ouve:—Para que serve saber isto ou aquillo? Sem estudar tambem se come e bebe!...

Se a criança é estudiosa e inteligente, em vez de pensar com leviandade sobre o assumpto, com a aprovação da mãe, concentrará todo o seu espirito no estudo e irá perguntar aos estranhos o que em casa não poude saber.

A pobre mãe será, aos olhos de seu proprio filho, uma ignorante, uma inferior.