De dia para dia esta convicção se irá radicando no ânimo da criança, á medida que fôr adquirindo conhecimentos, desenvolvendo a inteligencia.

O trabalho que se faz no seu espirito é lento, mas é seguro. Homens e mulheres feitos, não deixarão de amar as mães—quem o duvída?—Mas com esse amôr protector que se tem a uma bôa e dedicada ama que nos acalentou e amimalhou na infancia, o amôr deprimente que se tem pelos inferiores; não o sagrado afecto do filho, que o é, triplicemente, pelo sangue, pela amamentação e pela inteligencia desabrochada ao calôr do ensinamento materno.

O convencionalismo, a mentira social, encobre com falsos sentimentos verdades que julga crimes, mas que a natureza, na sua rudesa primitiva, não considera tais. Assim, quando a uma criatura em evidencia, pela sua nova posição social, se descobre uma quasi vergonha que as faz esconder a inferioridade dos pais, todos se indignam e lh'o lançam em cara como sangrento insulto.

Parece-nos um crime contra a natureza, mas na realidade é um sentimento bem humano e desculpavel nessas criaturas roídas de ambições, na ânsia de fruir gosos inéditos para os nados e criados na pobresa.

Quanta superioridade de ânimo lhes seria precisa para fugir ao mesquinho ponto de vista duma sociedade, que, se por um lado exproba esses sentimentos como um crime, por outro lado ri impiedosa dos ridiculos familiares de que o individuo não é culpado. Quanta vaidade, quanto orgulho amachucado, curtirão esses que querem aparentar grandesa e se vêem acorrentados á ironia dos seus inimigos por uma longa série de criaturas inferiores que irremediavelmente os prendem á mediocridade!... É das mais tragicas e ao mesmo tempo das mais comicas situações que a civilisação democratica dos nossos dias trouxe á babugem das suas ondas, de envolta com os parvenus, tão invejados por uns como despresados por outros...

Podemos considerar uma inferioridade de espirito esse sentimento de vergonha pelos seus? Certamente.

Mas não é nobre e alto do coração quem o quer ser. Nós todos, com os nossos assomos de independencia, não somos mais do que o producto do meio em que vivemos e nos criámos, os productos duma bem ou mal orientada educação, um conjuncto de convenções e mentiras numa sociedade construida sobre aparencias e falsidades.

Não condemnemos pois o filho que no seu intimo despresa intelectualmente a mãe, que no entanto estima e até julga respeitar.

A mulher tem bastante intuição, mesmo quando é ignorante, para comprehender o sentimento que inspira aos filhos. Embora se resigne dôcemente, no seu apático papel de tutelada, essa convicção deve-lhe ser amargurosa.

Para seu bem, e, mais ainda, para bem da sociedade que não póde já dispensar-lhe o concurso, preciso se torna que a mulher sáia desta situação que a inferiorisa, e a inutilisa como factor importante da civilisação.