—«Não é isso o que nos diz a nossa religião, Madre Superiora. Esconder um pecado ou culpa é uma prova de orgulho que Deus condena.
—«Mas não neste caso, em que a sua publicação trará descrédito e vergonha para a nossa santa casa. O que dirão, sabe, Soror Angelica?... Dirão que nesta casa a imoralidade chegou ao ponto de se apresentarem publicamente as filhas das freiras!...
—«Dirão uma mentira, que eu propria desfarei contando a verdade. Bem sabe, Madre{241} Angelica, que se não fiz isto ha muitos anos foi por seguir os seus conselhos, nos quais me mostrou que devia obediencia a minha mãe. Por ella, por esse respeito de que me falou para com uma pessôa que me afastou da casa de meu pai, que me expulsou como a uma criminosa, sofri dezoito anos dum silencio que considero uma covardia hôje... Ah, dezoito anos de saüdades por uma filha que se não conhece e pela qual se morre de amôr!... Ah, Madre Angelica, como fôram crueis comigo! A culpa, se a houve, se uma criança, como eu era, a pode têr por se deixar iludir por um homem da sua casta, um amigo de seu irmão... essa culpa bem a tenho lavado com lagrimas de um coração ansioso por conhecer a sua propria filha. Ah, a Madre Superiora é cruel: foi-o comigo, quando me fez recuar ante a minha justa vontade; é-o agora ainda, porque não compreende este meu sentir!... Mas agora sou livre; quero a minha filha—e heide tê-la!...
Manoela, sempre tão delicada no dizer e tão submissa, chegava nesse momento á voluptuosidade das almas sacrificadas quando uma vez chegam á consolação de poderem articular a verdade, que lhe sahia em palavras que pareciam golfadas, num atropêlo de quem{242} esteve encarcerado largos anos e vê por acaso uma porta escancarada.
—«E seus irmãos, o que dirão elles desse áto?—arriscou a Superiora tentando dissuadi-la.
—«Meus irmãos!?... Que lhes devo eu, Madre Superiora? Ha dezoito anos que me viram partir de casa, um amaldiçoando-me, os outros nem perguntando a causa dessa sahida, e só agora me escrevem porque apesar de tudo a lei me confere o direito de partilhar com elles a herança de nossos pais. Meus irmãos!? Quasi os não conheço... Nem lhes devo amizade, nem respeito. Á minha filha, sim, a essa devo todo o meu amôr, todos os momentos do resto da minha existencia.
—«Soror Manoela, pense bem. Será um escandalo! O que dirão essas meninas do côro, as criadas, as senhoras que nos protegem e nos dão a sua amizade?!... Para que estava eu guardada, Senhor!?—E a freira levantava as mãos e os olhos ao céo, num gesto implorativo, murmurando:—Ah, se Madre Gertrudes fôsse viva!...
—«Sim,—volveu a outra com vivacidade, tão pouco do seu costume—tem razão! Se minha tia fôsse viva, ella seria a primeira a chamar a si essa pobre criança que tem sido escorraçada de todos como um cão tinhoso.{243} E já que a não posso trazer para esta casa que me foi abrigo nas horas tristes da vida, sahirei daqui. Irei viver com minha filha livremente...
—«O que diz, Soror Manoela, deixar-nos!? Quer deixar-nos agora que estamos com os pés para a cova, e é a unica pessôa que aqui temos para nos ajudar a bem morrer, acabando em paz na nossa santa casa?!...
Os soluços sufocaram-na. Tambem ella sofria com a dôr da sua pupila; tambem dos seus olhos, que já deveriam estar esgotados, por tanto terem chorado, cahiram lagrimas que Manoela recolheu no coração angustiado.