Soror Angelica abriu-lhe os braços, e por largo tempo ficaram chorando juntas o desespero dessa primeira desinteligencia em tantos anos de confiada e dôce amizade. Foi a freira que quebrou o silencio:
—«Soror Manoela, mande vir a menina; mas, se lhe merecem alguma consideração as suas velhas companheiras, não a reconheça desde já publicamente. Deixe que a morte feche as portas do nosso convento, e então será completamente livre para fazer a sua vontade.
—«Mas que nome dará á amizade por uma criança que tão empenhadamente mando vir para junto de mim?{244}
—«Não poderá sêr uma afilhada?...
—«Afilhada?!....—Manoela hesitava, pesando-lhe muito aquella fraqueza como uma verdadeira covardia. Mas as velhas companheiras de toda a sua existencia de expulsa mereciam alguma consideração... Cederia.
Tinha de sêr—mais uma vez sacrificando ao descanso dos outros os seus sonhos, as suas revoltas, as suas alegrias, a sua vontade.{245}
[VI]
Alguns dias depois chegava Christina, acompanhada pela Ama-Rita, que chorava de comoção só com o pensamento de revêr a sua querida menina.
Manoela foi esperá-las á portaria, escondendo a custo a ansiedade da sua alma que tumultuava em desejos loucos de tomar a filha nos braços e gritar bem alto a sua paixão.
Toda ella tremia, sorrindo contrafeita ás conversas e perguntas das outras senhoras, amparada pela Madre Superiora, que extraordinariamente sahira do cantinho da sua céla para a fortalecer naquella suprema prova.