Veiu por fim a hora da chegada; abriu-se a portaria, e Manoela poude vêr pela grade entreaberta a Ama-Rita, muito vélhita e trôpega, acompanhada por uma mulher, uma verdadeira mulher forte e desempenada, que olhava com visivel curiosidade essas paredes enegrecidas que iam sêr o seu novo abrigo—sahida dum convento, onde a mãe pagara para a educarem, para entrar naquelle como recolhida.

Manoela, á medida que a filha se ia aproximando, subindo a escada para entrar no{246} palratorio, ia recuando espavorida, sentindo um frio de morte no coração, que a asfixiava. É que diante dos seus olhos estava, não a filha que amava e chamara febrilmente durante anos de paixão esteril em que se consumira, mas a imagem viva do homem que, na rétidão do seu caráter, apenas podera desprezar como um sêr ignobil e ascoroso.

Christina não era nada, nada do que ella tinha idealisado. Não era a sua filha, era a filha delle, que a natureza, inconsciente na fatalidade da sua força, lhe punha nos braços.

Vencendo a repugnancia instintiva que essa semelhança lhe inspirava, foi sorrisonha e meiga que recebeu a afilhada, mas Christina não correspondeu tambem a esse apêlo. Os seus olhos garços ficaram frios e dominadores, como eram habitualmente; a sua bôca não se desdobrou álêm do sorriso escarninho que lhe errava habitualmente nos labios.

Foi tristemente resignada que Manoela a acompanhou ao dormitorio cheio de luz onde ella dormia, e onde, com amoroso cuidado, lhe arranjara a cama velada com cortinados de inexcedivel brancura, fresca como um berço de criança.

Ama-Rita seguiu-as falando muito, abraçando de quando em quando a sua querida menina, que ainda era capaz de reconhecer{247} entre muitas apesar de tão mudada e tão triste.

Christina não despertou a simpatia viva que a mãe inspirara a toda a comunidade logo ao entrar no convento.

Pagava com sorrisos contrafeitos os carinhos que lhe faziam, e mal atentava nos mimos com que a mãe a rodeava. Aborrecia-se e impacientava-se com as pobres vélhinhas, que procuravam nessa mocidade a alegria que as aquecesse e lhes reflorisse as existencias a extinguirem-se. Como á mãe, outrora, todas abriram o coração a esse coração, mas este permaneceu fechado e frio, afastando-as descaroavelmente.

Tinha revoltas bruscas, respondia sêcamente, e queixava-se á Ama-Rita de que a queriam sepultar entre quatro paredes e que a tinham tirado duma prisão para a fecharem noutra peor. Manoela sofria com todas essas pequenas coisas, que se iam avolumando, tornando-a odiada por todas as outras companheiras; mas temia fazer-lhe qualquer observação receando o seu genio, que presentia violento e áspero...

Até que um dia Christina, de combinação com uma menina do côro que levou á rebelião, pôs uma verdadeira nota de escandalo no meio conventual, subindo com ella ao{248} telhado para vêr o que se passava no largo apinhado de gente para a feira.