«Subindo à capela superior, onde estava o tumulo, e analisando-o com todo o cuidado por fóra, acharam-no exactamente como havia ficado 276 anos antes, quando sobre ele se colocara a tampa, depois de introduzido o ataúde que encerrava o corpo. Apenas a piedade dos fieis o havia rodeado de demonstrações da fé e amor que os prendia Áquela cujos restos ali estavam encerrados.

«Ninguem sabia se o tumulo continha sómente os ossos da santa Esposa de D. Dinís, se mais alguma cousa que ainda restasse do corpo e mortalhas; por isso todos estavam anciosos por que o tumulo se abrisse.

«Retirada a pedra, encontrou-se a bolsa e o bordão de peregrina, que foram pelo bispo-conde entregues à guarda das religiosas.

«O ataúde ainda se achava envolvido em restos da pele de boi e da tela vermelha que havia sido repregada por cima.

«Com dificuldade se despregou a taboa superior do ataúde, cortaram-se à tesoura os numerosos envoltorios em que a santa Rainha fora amortalhada em Extremoz, antes de ser metida no caixão, os quais, se encontraram com admiração de todos, em perfeito estado de conservação, como se ali tivessem sido colocados pouco antes.

«Por fim descobriu-se o rosto, peito e braço direito da nossa excelsa Protectora. Todos cairam de joelhos, estupefactos pelo grande milagre que viam!

«O corpo achava-se inteiro e incorrupto, branco como se fosse de cera, a cabeça coberta de louros cabelos,{16} perfeitamente seguros na pele, a boca e olhos fechados e bem compostos, tendo impresso na fisionomia o cunho da bondade e majestade que haviam sido apanagio da Rainha Santa. Vestia o habito de estamenha das freiras de santa Clara, e um pano branco de linho envolvia-lhe a cabeça. Do ataúde saia aroma suave.

«Á vista de tal milagre as religiosas cantaram o hino do velho Simeão, dizendo: Agora, Senhor, já podeis deixar-nos morrer em paz, porque os nossos olhos viram as grandes maravilhas do vosso poder.

«Feito pelos medicos e cirurgião o exame minucioso que se lhes pedia, concertaram-se de novo as mortalhas, o tumulo fechou-se, e de tudo se lavrou o auto competente».

II