«Principiou por ser presente um envólucro, devidamente lacrado e selado, no qual externamente se lia a declaração de que continha as chaves do caixão da Rainha Santa, que ali foram encerradas e seladas a 23 de julho de 1892, em seguida ao acto de ser fechado o tumulo, depois da visita que a ele fizeram naquele dia o rei, rainha e principe. Verificado que os sêlos estavam intactos, foi aberto o invólucro, e apareceram duas chaves, uma de prata e outra de ferro, ligadas por uma cadeia de prata.

«Depois abriu-se o túmulo de prata, e tirou-se dele o caixão de madeira, forrado de rico brocado de seda e ouro, e com quatro belas fechaduras. Todos verificaram cuidadosamente que não acusava sinal algum de arrombamento; e em seguida, abertas as fechaduras e retirada a tampa, apareceu uma ostentosa colcha de brocado, igual ao que veste por dentro e por fora o caixão, sendo guarnecida de galão de ouro, e forrada de seda carmezim. Levantada esta cobertura, apareceu outra perfeitamente igual à primeira, e por baixo dela um veu transparente, através do qual se via nitidamente a mão da Santa Padroeira, e o habito de seda cinzenta que vestia o corpo. Cobrindo-lhe a cabeça havia um veu espesso de seda branca, sobre outro de fino linho, que lhe desciam até ao peito.

«Levantaram-se sucessivamente todos estes véus, e observou-se minuciosamente a mão direita, o rosto e os dois pés, que estão descalsos e em perfeito estado de conservação. Não se levou mais longe o exame, por ser desnecessario.{27}

«A mão da santa e virtuosíssima Esposa de D. Dinís foi beijada com piedoso fervor por aqueles dos presentes que tiveram essa devoção.

«Terminado o acto de verificação foi fechado o caixão e encerrado no tumulo de prata, com aposição de seis sêlos. Depois selaram-se novamente as chaves, e lavrou-se o respectivo auto.

«E assim ficou perfeitamente demonstrada a absoluta falsidade dos boatos que correram, e a que muita gente parecia dar crédito.»

CAPITULO VI

A Igreja de Santa Clara

Esta Igreja fica situada numa vistosa colina fronteira á cidade, estando precedida dum espaçoso pátio quadrilongo, do qual se disfruta um dos mais belos e ricos panoramas de Coimbra. Á entrada deste pátio encontra-se ainda hoje uma forte corrente de ferro que servia para dar o direito de defesa aos criminosos perseguidos.

O templo, que é de magnifica construção e de uma só nave, é fabricado no estilo romano; os retábulos dos seus altares são dignos de ser admirados, revelando-se neles a perfeição e gosto artistico que presidiu á sua execução.