III

Dá-me influxo mordaz, horripilante,
Como outr'ora abrasou um Aretino,
Esse fogo infernal, que teve o Dante,
Ou a graça sequer de Tolentino;
Mas tu, oh! Musa reles, e farçante,
Não me entruges o plectro de mofino;
Se me negas o dar-me engenho e arte,
Nem mais um decilitro hei de pagar-te.

IV

E seja o canto meu feroz, medonho,
Que similhe ao uivar do voraz lobo,
Ao crocitar dos corvos; enfadonho
Como o sorrir alvar de informe bobo,
Que a tratar o assumpto, que proponho,
Requer-se petulancia, e tal arroubo,
Que o leitor, deliquido n'um desmaio,
Me pareça assombrado pelo raio:

V

—N'um domingo de março, pela estrada
Que de Arroyos conduz á Panasqueira,
Vão magotes de povo de ranchada
A provar o bom vinho, e a petisqueira
Do louro peixe frito e da salada,
Que na Perna de Pau a taberneira
Lhes prepara; e com litros, comesanas,
De lá voltam com grandes carraspanas.

VI

Já burbulham as arvores, e as flores
Engrinaldam os prados de Flora;
As aves gorgeando os seus amores
Alternam o chiar da triste nora.
Correm montes e valles caçadores
Co'as matilhas de cães, mas em má hora,
Que as pintadas perdizes e coelhos
Levam ventos nas azas, nos artelhos.

VII

O dia estava brusco, e os pardaes
Chilreiam festejando o solsticio
Da vital primavera; nos curraes
Muge a vaca saudosa ao beneficio
Da pavêa; espirram os catharraes.
O povo é convidado p'ra um comicio,
Onde avido concorre p'ra tratar
D'uma ideia, que ha muito anda no ar.