VIII

Bôa gente de artistas, operarios,
Crestada pelas lavas do trabalho,
Vivendo das migalhas dos salarios
Que do fisco escaparam; rebotalho
Condemnado a subir asp'ros calvarios,
Que busca naipe ser no vil baralho,
D'onde querem tirar valetes, reis,
E trumphar co'o direito só das leis.

IX

Vão anchos, vão alegres na esp'rança
D'um futuro feliz, que os seus tribunos
Lhes promettem de ha muito. Essa alliança
Da justiça e poder, fins opportunos
Que á força popular lhes affiança
O livral-os das unhas dos gatunos,
Que roubando a nação se fazem nobres,
Vampiros a chupar o sangue aos pobres.

X

É grande a multidão ali trazida:
Alguns por curiosos se conduzem,
A outros a cobiça mais convida,
Que muitos com promessas se reduzem;
E quantos com a mente prevenida
De utopias, que o animo seduzem,
Com a grata illusão de vir a ser
Povo e rei de si mesmo no poder.

XI

Suspenso vê-se á porta da taberna
Um ramo de loureiro; mais em baixo
Por symbolo pintaram-lhe uma perna
E um letreiro:—«Bom vinho do Cartaxo,
Peixe frito, e as iscas á moderna»;
E de copo na mão vê se um borracho
Apontando p'ra a quinta, onde em devesas
Lá sob os parreiraes estão as mezas.

XII

A gente á porta embica n'um montão,
Inquieta formigando n'um bulicio,
Como em dia de roda ao Campeão
Concorre por esp'rar o beneficio
D'uma sorte feliz, d'um alegrão.
Assim acode ali, e no comicio
Apanha, triste sorte, muita chuva,
Muita parra, coitada, e pouca uva.