—Quizera que a propriedade, direito natural e civilisador, se estendesse ao maior numero de individuos; e que para completar a liberdade da terra se permitisse a remissão de todos os encargos que a oneram.{36}

—Quizera, por ultimo, que Portugal, como povo pequeno e opprimido, mas conscio e zeloso da sua dignidade, procurasse na—Federação—com os outros povos peninsulares a força, a importancia, e a verdadeira independencia que lhe faltam na sua tão escarnecida nacionalidade...


Não há querer mais nobre, aspirações mais santas; a par do grande philosopho, haverá ahi quem desconheça o poeta e o humanitario?

IV

Economista profundo, é um poeta e pensador; o illustre democrata, á maneira que nos apresenta uma das suas muitas, mas bonissimas reformas, não póde, precipitando o tempo pela imaginação, deixar de nos entoar um de{37} seus hymnos tão enthusiastas, tão intimamente consoladores de esperança no futuro para o pobre, o desvalido proletario.

A inspiração é tanta, a crença é tão forte, a fé é tão viva, que bastas vezes o tomarieis por um d'esses prophetas que nos pinta a antiguidade, a anathematisar os maus, de sobre esboroadas minas, a aviventar no coração dos bons a emmurchecida esperança em melhores tempos e mais christãos.

Ao ver tantas promessas de ventura, muitos, de incredulos, se negarão a dar-lhes fé; muitos lhe chamarão sonhos febris d'um sentido scismar de poeta; mas nenhum se atreverá a apodal-os de veneno ou de maldade. Muitos dirão com o poeta:

Vãos desejos, talvez: mas bons de certo.{38}

Mas nenhum terá força de lhes lançar o anathema terrivel, com que, verdade é, o seculo sóe pagar as ideias boas e nobres.