Dê-te estrellas o céo, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palmar.
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!

E nem sequer te lembres de que eu chóro…
Esquece até, esquece, que te adoro…
E ao passares por mim, sem que me olhes,

Possam das minhas lagrimas crueis
Nascer sob os teus pés flores fieis,
Que pises distrahida ou rindo esfolhes!

APPARIÇÃO

Um dia, meu amor (e talvez cedo,
Que já sinto estalar-me o coração!)
Recordarás com dor e compaixão
As ternas juras que te fiz a medo…

Então, da casta alcova no segredo,
Da lamparina ao tremulo clarão,
Ante ti surgirei, espectro vão,
Larva fugida ao sepulcral degredo…

E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos
E afflictos ais, estenderás os braços
Tentando segurar-te aos meus vestidos…

—«Ouve! espera!»—Mas eu, sem te escutar,
Fugirei, como um sonho, aos teus abraços
E como fumo sumir-me-hei no ar!

ACCORDANDO

Em sonho, ás vezes, se o sonhar quebranta
Este meu vão soffrer; esta agonia,
Como sobe cantando a cotovia,
Para o céo a minh'alma sobe e canta.