Filhos ambos do amor, igual miragem
Nos roçou pela fronte, que escaldava…
Igual traição, que o affecto mascarava,
Nos deu supplicio ás mãos da villanagem…

E agora, ali, em quanto da floresta
A sombra se infiltrava lenta e mesta,
Vencidos ambos, martyres do Fado,

Fitavamo-nos mudos—dor igual!—
Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual
Mais pallido, mais triste e mais cançado…

Velut Umbra

Fumo e scismo. Os castellos do horizonte
Erguem-se, á tarde, e crescem, de mil cores,
E ora espalham no céo vivos ardores,
Ora fumam, vulcões de estranho monte…

Depois, que formas vagas vêm defronte,
Que parecem sonhar loucos amores?
Almas que vão, por entre luz e horrores,
Passando a barca d'esse aereo Acheronte…

Apago o meu charuto quando apagas
Teu facho, oh sol… ficamos todos sós…
É n'esta solidão que me consumo!

Oh nuvens do Occidente, oh cousas vagas,
Bem vos entendo a cor, pois, como a vós,
Belleza e altura se me vão em fumo!

MEA CULPA

Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto o seixo.