Leva-te o ar da noite socegada…
Pergunto em vão, com olhos anciosos,
Que nome é que te dão os venturosos
No teu paiz, mysteriosa fada!

Mas que destino o meu! e que luz baça
A d'esta aurora, igual á do sol posto,
Quando só nuvem livida esvoaça!

Que nem a noite uma illusão consinta!
Que só de longe e em sonhos te presinta…
E nem em sonhos possa ver-te o rosto!

Metempsychose

Ausentes filhas do prazer: dizei-me!
Vossos sonhos quaes são, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
Do que fostes, em vós se agita e freme?

N'outra vida e outra esphera, aonde geme
Outro vento, e se accende um outro dia,
Que corpo tinheis? que materia fria
Vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes nas florestas bravas feras,
Arrastando, leôas ou pantheras,
De dentadas de amor um corpo exangue…

Mordei pois esta carne palpitante,
Feras feitas de gaze fluctuante…
Lobas! leôas! sim, bebei meu sangue!

UMA AMIGA

Aquelles, que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo…
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que á noite evoca o sentimento…