Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos… que eu invejo…
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!
D'aquella primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa…
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Tu só foste fiel—tu, como d'antes,
Inda volves teus olhos radiantes…
Para ver o meu mal… e escarnecel-o!
A uma mulher
Para tristezas, para dor nasceste.
Podia a sorte por-te o berço estreito
N'algum palacio e ao pé de regio leito,
Em vez d'este areal onde cresceste:
Podia abrir-te as flores—com que veste
As ricas e as felizes—n'esse peito:
Fazer-te… o que a Fortuna ha sempre feito…
Terias sempre a sorte que tiveste!
Tinhas de ser assim… Teus olhos fitos,
Que não são d'este mundo e onde eu leio
Uns mysterios tão tristes e infinitos,
Tua voz rara e esse ar vago e esquecido,
Tudo me diz a mim, e assim o creio,
Que para isto só tinhas nascido!
Voz do Outomno
Ouve tu, meu cançado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
—«Mais te valera, nú e sem defeza,
Ter nascido em asperrima soidão,